Boletim do Cordeiro

Idade de desmame de cordeiros deslanados para terminação em confinamento, no litoral norte da Bahia


Introdução O litoral norte da Bahia apresenta fatores climáticos favoráveis à produção de forragens tropicais – altos índices de luminosidade, temperaturas médias em torno de 25ºC, baixa amplitude térmica anual e precipitação média de 1.500 mm/ano. Entretanto, Siqueira (2000a) alerta que essas condições climáticas são favoráveis à proliferação helmíntica nas pastagens. Segundo Boas (1990), os ovinos se infectam por helmintos ao ingerirem forragem contaminada. Os cordeiros compõem a categoria animal mais sensível à verminose, que provoca redução na absorção de nutrientes, na digestão e no consumo voluntário dos alimentos (Siqueira, 2000), além de redução da taxa de crescimento (Barros et al., 1996) e aumento da taxa de mortalidade (Guimarães Filho et al., 2000) justamente dentro do período definido por Oliveira (2002), de até 90 dias de idade, como o de maior capacidade produtiva dos ovinos. Siqueira (2000b) afirma que a ovelha produz 75% do total da lactação até os 56 dias pós-parto. Silva Sobrinho (2001) relata que, a partir dos 56 dias, o cordeiro já tem a capacidade de um ovino adulto para digerir alimento sólido, estando apto ao desmame. Contudo, Oliveira et al. (1996) recomendam o desmame dos 70 aos 84 dias de idade e Castillo et al. (1973), dos 75 a 90 dias. Visando reduzir o tempo de exposição dos cordeiros aos helmintos nas pastagens com altas cargas parasitárias e de baixo valor nutritivo, Siqueira (2000a) sugere a antecipação do desmame, seguida da terminação em confinamento. Para que os ovinos sejam desmamados mais cedo, o autor recomenda a suplementação exclusiva dos lactentes por meio do uso de alimentador privativo desde os dez dias de idade. De acordo com Neres et al. (2001), esta prática eleva o ganho de peso, além de melhorar a resposta imunitária dos cordeiros frente às infecções verminóticas (Haile et al., 2002). De acordo com Nudell (2001), para determinação da idade ótima de desmame de cordeiros para terminação em confinamento, é necessária a realização de estudos de parâmetros produtivos, de forma a explorar a máxima eficiência nas fases de cria e terminação. Objetivou-se, com este trabalho, determinar a melhor idade para o desmame de cordeiros deslanados, mestiços de Santa Inês, para terminação em confinamento no litoral norte da Bahia. Foram analisados os parâmetros ganho de peso diário do nascimento ao desmame (GPND), ganho de peso diário em confinamento (GPC), ganho de peso diário do nascimento ao abate (GPD) e conversão alimentar do concentrado no confinamento (CAC), entendendo-se por CAC a relação entre kg de ganho de peso por kg de concentrado consumido. Material e Métodos O experimento foi conduzido na Fazenda Lagoa, localizada no município de Jandaíra, litoral norte da Bahia, situado a 11º33´45" de latitude sul e 37º48'45" de longitude oeste, com altitude média de 146 metros. O clima na região é do tipo quente e úmido, com temperatura média anual de 24,8ºC e precipitação de 1.500 mm. O solo é caracterizado por baixa fertilidade natural, com pH de 5,38 e baixos níveis de fósforo (0,8 ppm). Foram utilizados 32 cordeiros (16 machos e 16 fêmeas), filhos de reprodutores Santa Inês puros de origem (PO) e matrizes deslanadas sem raça definida (SRD) com ordem de parto entre três e cinco, nascidos de partos simples entre 18/10 e 04/11/2002, com pesos vivos médios ao nascimento de 3,85 kg (de 3,0 a 4,6 kg), ao desmame de 13,53 kg e ao abate, de 20,45 kg. O período experimental teve duração de seis meses. Os cordeiros foram manejados com as ovelhas progenitoras em 14 piquetes de 1,5 ou 2,0 hectares, formados com pastagem de Brachiaria humidicola, com lotação animal média de cinco matrizes/ha, período de ocupação de 1,5 ou 2 dias (proporcional à área de cada piquete) e intervalo de pastejos de 24 dias. Diariamente, às 17 h, os cordeiros eram recolhidos num galpão, onde tinham acesso ao alimentador privativo (creep-feeding) até às 7 h do dia seguinte, quando retornavam aos piquetes. A ração do alimentador privativo foi composta por 68% de milho moído, 29% de farelo de soja e 3% de sal mineral (19,37% de PB e 75,57% de NDT), verificando-se consumo diário médio de 125 g. Apesar de terem recebido vermífugo homeopático constantemente, misturado ao sal mineral, todos os animais do experimento foram tratados, no dia do desmame, com medicamento à base de Moxidectina1 a 1%, na dosagem de 1 mL/50 kg de PV. Após o desmame, os cordeiros foram confinados até os 126 dias em baias individuais de piso cimentado, com área útil de 1,5 m2 e cama de areia, onde receberam feno de Cynodon spp. cv Tifton 85 (92,45% de MS, 9,73% de PB, 78,85% de FDN, 39,05% de FDA e 1,81% de EE), água e sal mineral à vontade. A ração concentrada (19,95% de PB e 75,46% de NDT), composta de 66,4% de milho em grão, 30,6% farelo de soja e 3,0% premix vitamínico mineral, foi fornecida na proporção de 2% do PV por dia, dividida em duas refeições diárias, às 8 e 18 h. O cálculo dos níveis de PB e NDT das rações concentradas do alimentador privativo e do confinamento se baseou nas tabelas de composição nutricional dos alimentos descritas por Teixeira (2001). As análises para determinação dos valores de MS, PB, FDN, FDA e EE do feno de Tifton 85 utilizado foram realizadas no Laboratório de Nutrição Animal da Escola de Medicina Veterinária da UFBA. Os ajustes nas quantidades de alimento concentrado fornecidas a cada animal, durante o período do confinamento, foram feitos sempre após as pesagens semanais individuais de todos os animais. Os cordeiros também foram pesados no dia do nascimento, ao desmame e aos 126 dias, para obtenção dos parâmetros produtivos GPND, GPD, GPC e CAC. Todas as pesagens foram realizadas pela manhã, após jejum de alimento sólido de 13 horas. Utilizou-se delineamento inteiramente casualizado em esquema fatorial 4 x 2, ou seja, quatro idades de desmame (56, 70, 84 e 98 dias de idade) e sexo, com quatro repetições por tratamento, totalizando 32 animais (16 machos e 16 fêmeas). Os tratamentos foram classificados da seguinte forma: T1 – machos desmamados aos 56 dias de idade T2 – fêmeas desmamadas aos 56 dias de idade T3 – machos desmamados aos 70 dias de idade T4 – fêmeas desmamadas aos 70 dias de idade T5 – machos desmamados aos 84 dias de idade T6 – fêmeas desmamadas aos 84 dias de idade T7 – machos desmamados aos 98 dias de idade T8 – fêmeas desmamadas aos 98 dias de idade Avaliou-se ganho de peso diário do nascimento ao desmame (GPND), ganho de peso diário no confinamento (GPC), ganho de peso diário do nascimento ao abate (GPD) e conversão alimentar do concentrado no confinamento (CAC). Os resultados foram analisados pelo programa SISVAR (Sistema de Análise de Variância para dados balanceados), desenvolvido por Ferreira (2000), utilizando-se análise de regressão e o seguinte modelo estatístico: Yijk = m + ii + sj + isij + eij em que Yijk é o valor da variável observada no cordeiro "k" com idade de desmame i e sexo j; m é a constante inerente ao modelo; ii, o efeito da idade de desmame, sendo i = 1, 2, 3, 4; sj, o efeito do sexo j, sendo j = 1, 2; isij, o efeito da interação entre a idade de desmame i e o sexo j; eij, o erro aleatório associado a cada observação, suposto normalmente distribuído e independente, com média zero e variância 2. Resultados e Discussão Constam na Tabela 1 os valores de ganho de peso diário do nascimento ao desmame (GPND). Não houve efeito da interação (P>0,05) dos fatores idade de desmame e sexo sobre o GPND (Tabela 1). O GPND médio observado neste trabalho foi de 127,36 g (Tabela 1), similar aos valores médios citados por Combellas (1980), de 122,50 g, para algumas raças tropicais, por Matika et al. (2003), de 124 g, para a raça Sabi, e por Godfrey & Dodson (2003), de 118,8 g, em cordeiros Barbados Blackbelly e Saint Croix White desmamados aos 63 dias de vida. GPND inferiores foram descritos por Butterworth et al. (1968), de 93 g, em cordeiros Black Headed Persian desmamados aos 84 dias de idade, por Combellas (1981), de 114,3 g, em cordeiros West African suplementados em alimentador restrito, e por Abegaz et al. (2003), de 100 g, em cordeiros Ethiopian Horro desmamados aos 90 dias. Silva et al. (1993) observaram, em cordeiros mestiços Santa Inês provenientes de partos simples desmamados aos 56 e 84 dias de idade, GPND de 158,6 g e 144,4 g, respectivamente, valores superiores aos encontrados neste trabalho. Variações observadas para valores de GPND podem ser atribuídas a diversos fatores: potencial genético dos cordeiros para ganho de peso (Santos et al., 1999), qualidade da dieta fornecida (Sá & Otto de Sá, 2002), sistema de produção (Macedo et al. 1999), quantidade de leite produzida pelas ovelhas (Sañudo et al., 1998), contaminação ambiental por helmintos (Haile et al., 2002), número de crias por parto, idade de desmame (Sampaio & Oliveira, 2002) e época de desmame (Silva et al., 1993). Verificou-se efeito quadrático (P<0,05) da idade de desmame sobre o GPND (Figura 1), que atinge seu valor máximo nos animais desmamados com aproximadamente 76 dias de vida. Segundo Oliveira (2002), o ganho de peso dos ovinos é crescente até os 90 dias de idade, fase de maior capacidade de crescimento. O GPND pode diminuir a partir dos 76 dias de vida, como efeito das infestações helmínticas em ambiente úmido (Boas, 1990), acentuado à medida em que se eleva a idade de desmame dos cordeiros (Haile et al., 2002). Não houve efeito significativo (P>0,05) do sexo sobre o GPND (Tabela 1), corroborando os resultados encontrados por Carvalho et al. (1999), em cordeiros mestiços Texel x Ideal desmamados aos 50 dias de idade, e por Guimarães Filho et al. (2000), em cordeiros mestiços Santa Inês desmamados aos 112 dias. Segundo os autores, quanto menor a idade dos ovinos, menor a possibilidade de diferença de desempenho entre os sexos. Os valores de ganho de peso diário no confinamento (GPC) estão relacionados na Tabela 2. Houve efeito significativo (P<0,05) da interação dos fatores idade de desmame e sexo, uma vez que o GPC dos cordeiros desmamados aos 84 dias foi superior aos das cordeiras desmamadas com a mesma idade (Tabela 2). O GPC médio observado nos ovinos desmamados aos 84 dias, de 178,79 g (Tabela 2), está inserido no intervalo proposto por Barros et al. (1997), de 44 a 267 g/dia para cordeiros da raça Santa Inês. Valores de GPC inferiores foram relatados por Camurça et al. (2002), de 98 g, em animais Santa Inês com 26,5 kg de PV inicial, confinados por 42 dias, por Gaili et al. (1992), de 83,3 g/dia a 113,1 g/dia, em cordeiros desmamados com 45, 60, 75 e 90 dias para abate aos nove meses de idade, e por Fernandes et al. (1996), de 156 g, em cordeiros Santa Inês x Crioula desmamados e confinados aos 84 dias de idade recebendo dieta concentrada na proporção de 4% do PV. No entanto, GPC superiores aos obtidos neste trabalho foram reportados por Furusho Garcia et al. (2001), de 194,5 g/dia, em ovinos Santa Inês confinados com 15 kg de PV inicial e alimentados com dieta contendo 80% de alimento concentrado, formulada para GPC de 300 g/dia, segundo o NRC (1985), e por Barbosa (2002), de 205,61 g/dia, em cordeiros Santa Inês alimentados, do desmame (aos 75 dias) até atingirem 28 kg de PV, com dieta à base de feno de Buffel grass (Cenchrus cilaris) e alimento concentrado à vontade. Não foi possível definir uma equação de regressão de primeiro ou de segundo grau que se ajustasse aos dados. A equação cúbica significativa não permite uma interpretação adequada para o parâmetro estudado. Os dados obtidos para ganho de peso diário do nascimento ao abate (GPD) são apresentados na Tabela 3. Observou-se efeito significativo (P<0,05) da interação idade de desmame e sexo sobre o GPD dos animais, em que os indivíduos do sexo masculino desmamados com aproximadamente 84 dias evidenciaram superioridade sobre as cordeiras desmamadas com a mesma idade. Os ovinos desmamados aos 84 dias de idade apresentaram GPD médio de 146,23 g (Tabela 3), valor próximo ao verificado por Barros et al. (1997), de 141,55 g, em cordeiros machos inteiros mestiços Santa Inês, com aproximadamente quatro meses de idade, confinados por 70 dias. Combellas (1981) relatou GPD de 93 g, em cordeiros West African suplementados em alimentador restrito até o desmame, aos 56 ou 84 dias, e confinados até os 140 dias de idade. De Alba & Foote (1977) registraram GPD de 107 g, em cordeiros Peliguey com 240 dias de vida, enquanto Combellas (1980) verificou GPD de 115 g para algumas raças tropicais. Valores superiores aos alcançados neste trabalho foram obtidos por Carvalho et al. (1999), de 227 g, em cordeiros Texel x Ideal desmamados aos 50 dias e pesados aos 100 dias, e por Muniz et al. (1998), de 189 g, em cordeiros Corriedale e Ideal desmamados aos 60 dias e abatidos aos 100 dias de idade. Carvalho et al. (1999) e Muniz et al. (1998) confinaram os cordeiros juntamente com as matrizes desde o nascimento e forneceram dietas para atendimento de todos os requisitos nutricionais, tanto das ovelhas lactantes quanto dos cordeiros desmamados. Sañudo et al. (1998) comentam que dietas com altos níveis de energia, quando fornecidas às matrizes lactantes, elevam as produções de leite e, conseqüentemente, aumentam a ingestão láctea por parte dos cordeiros, promovendo maior PV ao desmame, assim como, quando fornecidas aos cordeiros, proporcionam maiores ganhos de peso após o desmame. Verificou-se efeito quadrático (P<0,05) da idade de desmame sobre o GPD, que atingiu valor máximo nos animais desmamados aproximadamente aos 75 dias de idade (Figura 3), corroborando relatos de Vasconcelos et al. (2000), Oliveira et al. (1996) e Castillo et al. (1973), que recomendam as faixas de 70 a 83 dias, de 70 a 84 dias e de 75 a 90 dias, respectivamente. Houve efeito quadrático da idade de desmame sobre o GPD dos cordeiros (Figura 4), demonstrando que a melhor idade de desmame para animais do sexo masculino é de 76 dias. Constam na Tabela 4 os valores observados para conversão alimentar do concentrado no confinamento (CAC). Não houve efeito significativo (P>0,05) da interação dos fatores idade de desmame e sexo (P>0,05), nem do sexo sobre a CAC (Tabela 4), possivelmente pelo fato de os animais terem sido abatidos em idade precoce. A CAC média foi de 2,03:1 (2,03 kg de alimento concentrado/kg de ganho de peso vivo), valor menor que o observado por Potkanski et al. (1991), de 1,86:1, em cordeiros Merino Polonês, com GPC's entre 178 e 206 g, desmamados aos 60 dias de idade e alimentados à vontade com feno e concentrado até completarem 120 dias. A conversão alimentar pode ser afetada pela dieta fornecida aos animais (Rodrigues et al., 1997), pois, segundo Barros et al. (1997), o fornecimento de dietas ricas em alimento concentrado e/ou de maiores níveis de proteína e energia melhoram a eficiência alimentar (Sá & Otto de Sá, 2002). Observou-se efeito quadrático (P<0,05) da idade de desmame sobre a CAC (Figura 5), que atingiu seu nível máximo de eficiência nos animais desmamados aproximadamente aos 72 dias de idade. Houve efeito quadrático (P<0,05) sobre a CAC de cordeiros (Figura 6) e de cordeiras (Figura 7), cujas idades de desmame nas quais este parâmetro assumiu a maior eficiência ocorreu em torno dos 71 e 72 dias, respectivamente. É provável que animais desmamados a partir destas idades já tenham sofrido, de forma mais expressiva, os efeitos deletérios da verminose, reduzindo a eficiência alimentar e, conseqüentemente, piorando a CAC. Conclusões A melhor idade para o desmame de cordeiros deslanados mestiços Santa Inês, para terminação em confinamento, no litoral norte da Bahia, é de 72 dias, uma vez que os animais desmamados com esta idade apresentaram a melhor conversão alimentar em confinamento e os melhores ganhos de peso diário, do nascimento ao desmame e do nascimento ao abate, foram obtidos quando os animais foram desmamados aos 76 e 75 dias, respectivamente.

Fonte: Davi Correia de FreitasI; Gabriel Jorge Carneiro de OliveiraII; Soraya Maria Palma JaegerII; Adriana da Silva Rodrigues CavalcantiIII; Carlos Alberto da Silva LedoIV; Paulo Emílio Landulfo Medrado de Vinhaes TorresI; Antônio de Oliveira Leite FilhoI; Paul

 

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