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O uso de feno na alimentação de caprinos e ovinos
Nos diversos modelos de sistemas de produção de ovinos e caprinos, a alimentação exerce papel fundamental sobre a produção, o melhoramento, a saúde e o rendimento econômico dos animais. Os reflexos da alimentação manifestam-se principalmente no ganho de peso, na secreção do leite, no trabalho muscular e na acumulação de gordura. Por outro lado, as características e aptidões de cada indivíduo são também influenciadas por sua constituição genética. Todavia, a plena exteriorização da potencialidade genética só é possível quando a alimentação é adequada e suficiente, ou seja, de acordo com as exigências nutricionais individuais. Em caso contrário, a má alimentação funciona como fator limitante da produção e, embora o indivíduo possua aptidão genética para produzir, fica impossibilitado de revelá-la integralmente. Para efeito de melhoramento, somente são consistentes as comparações entre indivíduos que revelam toda a sua potencialidade. No Nordeste do Brasil, notadamente na região semi-árida, são notórios os problemas alimentares dos pequenos animais, especialmente nos períodos prolongados de seca. Embora as pastagens nativas sejam abundantes e de alto valor nutritivo nas épocas chuvosas, as incertezas climáticas e os ciclos efêmeros da vegetação exigem a suplementação dos animais para que eles possam sobreviver e produzir satisfatoriamente. Inúmeras alternativas são encontradas para o fornecimento de volumosos de qualidade. Entretanto, pelas facilidades nos processos de produção e armazenamento, bem como pela sua qualidade nutricional, a administração de feno é uma das alternativas mais viáveis para os sistemas de produção nordestinos. O feno é obtido mediante a exposição ao sol e ao ar da planta cortada, que sofre dessecação lenta e parcial, de modo que a sua taxa de umidade, originalmente de 60 a 85%, seja reduzida para teores entre 10 e 20%, com perda mínima de nutrientes, maciez, cor e sabor. A fenação é um processo simples e econômico, sendo recomendável porque oferece algumas vantagens. Sua execução não apresenta dificuldades que impeçam o pequeno criador de realizá-la com o emprego de recursos manuais, ao passo que o grande criador pode fazê-la em larga escala com o auxílio da mecanização. O armazenamento do feno é muito flexível, porque pode ser feito em fenis, medas ou depósitos, neste caso quando enfardado. A distribuição é simples, pois pode ser feita no cocho, podendo também ser consumido diretamente quando produzido em medas. O bom feno é palatável, nutritivo e ótima fonte de vitaminas A e D. Em virtude da sua concentração, um quilo de feno pode substituir três quilos de silagem de milho ou sorgo ou de forragem verde. Todavia, o valor do feno varia sob a influência de diversos fatores, principalmente a espécie e a idade da forrageira utilizada e da perfeição do seu manuseio e armazenamento, que envolvem o corte, a secagem, o transporte e pormenores relativos às medas, fardos e depósitos. A qualidade de um feno depende de sua composição química, palatabilidade e digestibilidade, que por sua vez estão na dependência de diversos fatores, principalmente os seguintes: espécie botânica da planta, estágio de desenvolvimento, proporção de folhas, coloração verde, alterações causadas por mofos, bolores e insetos, presença de material estranho e perdas sofridas durante a preparação. Quanto às espécies de plantas, deve-se considerar principalmente que as leguminosas são ricas em proteína e cálcio, enquanto que as gramíneas são mais ricas em carboidratos. Algumas gramíneas, como o capim-buffel, a braquiária e o tyfton podem produzir fenos de alta qualidade. Por outro lado, o feno de leucena pode apresentar teores de proteína bruta em torno de 16%, com digestibilidade de 65%. Sob irrigação é possível promover cortes na leucena a cada 35 dias, o que proporciona de 12 a 15 toneladas de feno por hectare/ano. A fase de maturação no momento do corte tem grande influência sobre o feno quanto ao rendimento por unidade de área, valor nutritivo, palatabilidade, digestibilidade, proporção de folhas, coloração e teores de proteína, fibra e elementos minerais. A planta nova produz feno mais rico em proteína e minerais, porém mais pobre em fibras, sendo mais palatável e digestível. O rendimento é tanto menor e a qualidade é melhor, quanto mais nova é a planta. As folhas são muito mais palatáveis, digestíveis e ricas em nutrientes que as hastes. Assim sendo, todos os cuidados que diminuem as perdas de folhas durante a preparação e o armazenamento do feno são vantajosas. A cor verde, mais intensa na planta nova e no feno bem preparado, é altamente desejável porque indica a riqueza em caroteno, que tem fundamental importância na nutrição. A presença de mofos e bolores diminui a palatabilidade e o valor nutritivo do feno, além de ser perigosa para a saúde dos animais. Por sua vez, o ataque de insetos prejudica a qualidade do alimento, porque em geral afeta a proporção de folhas, a coloração a palatabilidade e o valor nutritivo. Na fenação, além da perda natural de água, ocorrem outras que afetam partes ou componentes da planta. Assim, as folhas sofrem perdas durante o secamento, principalmente quando este é exagerado; vitaminas são perdidas por descoloração e oxidações; a quantidade de matéria seca é reduzida por fermentações; a lavagem pela chuva causa perdas de nutrientes solúveis. Mesmo no feno armazenado, ocorrem perdas durante a cura, devido principalmente a fermentações e à ação da umidade. Assim é que o amido e os açúcares da forragem, por fermentações durante a cura do feno, são transformados em água e gás carbônico. Todavia, estas perdas podem ser reduzidas quando o feno é armazenado sem excesso de umidade e bem protegido, pois estes cuidados dificultam ou atenuam a fermentação e a elevação da temperatura. Se os aspectos negativos são devidamente controlados, o produtor poderá ter no uso do feno uma rica e relativamente barata fonte de nutrientes essenciais para os caprinos e ovinos. Contudo, é bom lembrar que, dependendo do estado fisiológico e do nível de produção do animal, provavelmente uma suplementação com concentrados seja necessária, principalmente durante o terço final da gestação e durante a lactação. Finalmente, não se deve esquecer que uma ração perfeitamente equilibrada, para produzir o máximo resultado, depende da influência exercida sobre os animais por diversos fatores em conjunto, principalmente as condições ambientais, a capacidade genética, o estado sanitário e o manejo do rebanho.
Fonte:
Eneas Reis Leite
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