Boletim do Cordeiro

Fruteiras e ovelhas dividem o mesmo espaço no pomar


Por Clóvis Guimarães Filho e José Givaldo Goes Soares - Pesquisadores da Embrapa Semi-Árido Uma nova alternativa tecnológica começa a despertar maior interesse no agronegócio do polo Juazeiro-Petrolina: a integração, no mesmo espaço, do cultivo de fruteiras irrigadas com a criação de animais, particularmente ovinos. Em pomares de mangueiras e coqueiros é crescente a conjunção dessas atividades, apoiada por trabalhos da pesquisa. Em plantios de videiras e goiabeiras, a mistura ainda é muito incipiente, mas apresenta a mesma tendência, a partir do interesse individual de alguns produtores. A base do sistema é o pastejo rotacional dos animais no pomar, em um piquete móvel de cerca eletrificada, simulando uma "roçadeira viva". Os benefícios dessa integração não são apenas de ordem econômica. Evidentemente que este aspecto é o primeiro a ser destacado na avaliação desse sistema que combina fruticul-tura e pecuária, já que o mesmo pode propiciar uma acentuada redução no custo de produção da fruta. Ao se aproveitar a mesma área com duas atividades, ganha-se uma maior eficiência no uso da terra e obtém-se uma melhor distribuição no fluxo de caixa. Os custos podem cair expressivamente com a eliminação ou a redução no número de capinas manuais, roçagens me-cânicas e aplicação de herbicidas, tarefas substituídas pela ação dos ovinos. Outra vantagem adicional é a poda da "saia" da mangueira que também é feita pelos animais. Estudos da Em-brapa em áreas comerciais de mangueiras e de coqueiros comprovaram ser viável a obtenção dessas vantagens, sem qualquer efeito negativo na produtividade da fruteiras. Há, contudo, outras vantagens que contribuem para elevar a sustentabilidade da fruti-cultura e credenciam a fruti-ovinocultura como instrumento potencial para ser incorporado ao sistema de produção integrada ou à produção orgânica de frutas. A médio e longo prazos, ob-serva-se redução nos custos com aplicação de fertilizantes, devido à deposição contínua e con-centrada de fezes e urinas dos animais, melhorando, simultaneamente, a estrutura do solo e a sua capacidade de retenção de umidade. Nesta mesma linha, pode-se prever a redução ou atenuação de problemas ambientais por meio da eliminação, parcial ou total, do uso de herbicidas e da redução dos problemas de compactação do solo em áreas intensivamente mecanizadas. Da mesma forma, é previsível a diminuição da incidência de pragas e doenças, considerando que os animais consomem quase todo o material decomponível favorável a disseminação de micro-organismos e de vetores no pomar. Uma questão fundamental, no entanto, é que esta tecnologia não pode ser implantada de forma aleatória, com a simples junção dos dois elementos do sistema no mesmo espaço. Há parâmetros técnicos que, se não forem bem manejados podem causar mais danos que trazer benefícios. Em primeiro lugar é preciso ter em conta que, a atividade pecuária, no consórcio, deve ser considerada como complementar à fruticultura. Seus procedimentos, portanto, devem se adequar às necessidades maiores da fruteira cultivada. Assim, a quantidade de animais a ser criada é definida em função das práticas de cultivo demandados pela fruteira, do tipo de vege-tação espontânea existente na área e até do sistema de irrigação empregado. O objetivo é man-ter os animais na área do pomar por 7 a 9 meses, retirando-os nos períodos de maior vulnera-bilidade da planta, como floração e frutificação. Embora essa seja a orientação inicial da Em-brapa, já há produtor que mantém os animais no pomar de mangueiras durante todo o ano, sem aparentes danos à produtividade da cultura. O sistema usado pelos produtores, contudo, sem o uso do piquete de cerca elétrica, apesar de bom para os animais, pouco benefício ofere-ce às fruteiras. Os ovinos são mais indicados para esse consórcio porque se alimentam de quase todas as espécies de estrato herbáceo que vegetam nos pomares da região. Não há, ainda, uma posi-ção definida, com relação a melhor raça ovina para esse sistema. Como princípio geral deve-se considerar que os animais de raças mais especializadas exigem pasto de melhor qualidade para expressar todo o seu potencial genético. Nesse sentido, para pastos do tipo nativo, que comu-mente ocorre nos nossos pomares, podem ser usados animais mestiços das raças Santa Inês, Morada Nova e Somalis. Para pastos cultivados de maior potencial - o cultivo de pastos entre as fruteiras é outra variante do sistema - como o tiffon ou o pangolão, os melhores resultados deverão obtidos com o uso de animais cruzados Santa Inês ou Somalis com raças mais especi-alizadas para carne, como a Dorper, a Suffolk, a Texel ou a Ile-de-France. Outro aspecto a ser considerado é com relação à categoria animal - machos para recria e engorda ou ovelhas de cria? A vantagem maior, sem dúvida, reside na primeira opção. Como se trata de animais jovens, de menor porte, o manejo requerido é mais simples. Os animais que atingem o peso de abate vão sendo retirados do sistema, vendidos e substituídos por outros animais. Esta rotatividade propicia, ao final do ano, uma alta taxa de lotação por unidade de área. No caso das ovelhas de cria há que se destacar um complicador para aquelas fruteiras que exigem a retirada dos animais durante o período de floração/frutificação - o produtor teria que dispor de uma outra área, com pastos, para onde transferir os animais. O cultivo de fruteiras sob irrigação tem se expandido rapidamente na região e a sua consorciação com ovinos oferece condições potenciais de, através da redução de custos, pro-porcionar melhores condições de competitividade aos seus produtos nos mercados nacional e internacional. A Embrapa Semi-Árido, vislumbrando esse potencial, está buscando parcerias com produtores para expandir seus trabalhos em busca da consolidação e da otimização dessa alternativa como instrumento de apoio ao agronegócio da fruticultura irrigada da região.

Fonte: Clube do Fazendeiro, Artigo técnico – www.clubedofazendeiro.com.br

 

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