Boletim do Cordeiro

Caprino-ovinocultura: uma alternativa à geração de emprego e renda


Por Aurino Alves Simplício (Pesquisador e Chefe Geral da Embrapa Caprinos) O Nordeste brasileiro semi-árido tem sido assumido, durante séculos, como área de vocação pecuária, especialmente, para a exploração dos ruminantes domésticos. No entanto, ressalte-se os caprinos e ovinos face a característica de adaptação a ecossistemas adversos o que é fortemente influenciado pelos seus hábitos alimentares. Alia-se a este fato a característica reprodutiva de poliestria contínua, isto é, apresentam estro (cio) e ovulam ao longo de todos os meses do ano, apresentada por esses pequenos ruminantes domésticos na região, onde o fotoperíodo não constitui fator limitante para a reprodução, uma vez atendidas as necessidades de alimentação, nutrição e de saúde dos rebanhos. Por conseguinte, dentre as várias alternativas encontradas para a exploração agropecuária racional no Nordeste brasileiro destaca-se a caprino-ovinocultura como uma alternativa econômica viável de geração de emprego e renda apesar das intempéries climáticas que, ciclicamente, se abatem sobre a região. Por outro lado, deve-se registrar que o simples fato desses animais apresentarem potencial produtivo ao longo do ano, não tem atendido aos requisitos básicos de uma atividade voltada para as demandas advindas de um mercado cada vez mais exigente. Assim, a produção de caprinos e ovinos, com base em sistemas empíricos de exploração tradicionalmente praticados na Região Nordeste, não mais constitui solução para a fixação do homem à terra. Por conseguinte, os novos conceitos de organização e gestão da propriedade rural, isto é, da unidade produtiva, bem como, a adoção de tecnologias são necessários para a inserção do caprino-ovinocultor na economia de mercado e para a promoção da qualidade de vida do homem no campo, em patamares condizentes com as exigências das organizações internacionais de desenvolvimento econômico e social. A captação e acúmulo de água, por diferentes formas, constitui o alicerce para a manutenção do homem no campo e a exploração pecuária nas condições do semi-árido nordestino brasileiro. Por outro lado, para a implantação e/ou implementação racional da caprino-ovinocultura na Região, preferencialmente, deve-se investir nos tipos raciais ou raças naturalizadas ou ainda em raças exóticas que, por sua origem, apresentem maiores possibilidades de se adaptarem às condições edafoclimáticas locais. O foco da exploração, por sua vez, deve estar centrado no cliente; na organização e gestão da unidade produtiva; em objetivos claramente definidos e em estratégias racionais e factíveis de execução favorecendo, dessa forma, o alcance dos objetivos. Por outro lado, a produção, a conservação e a disponibilidade de forragem de elevado valor nutritivo, em especial, para os animais adultos mais produtivos e os jovens, nas fases de cria e recria; descartar os animais menos produtivos ou improdutivos; perseguir a minimização dos custos e inserir a atividade na economia de mercado são pontos fundamentais para se alcançar o sucesso nas explorações caprina e ovina. Dentre as estratégias passíveis de adoção ressaltam-se, o descarte orientado através do qual se retira do rebanho os animais improdutivos ou menos produtivos e os machos excedentes, castrados ou inteiros. Com essa prática, reduz-se a pressão de pastejo e, em conseqüência, promove-se uma maior disponibilidade de alimento para os animais produtivos. O controle dos rebanhos por meio da escrituração zootécnica, a qual permite identificar, individualmente, os animais mais produtivos e exercer pressão de seleção, favorecendo assim acelerar o melhoramento genético dos rebanhos. Também, investir na introdução de forrageiras adaptáveis e produtivas, estimular e dar suporte ao cultivo de forrageiras adaptadas e a programas de conservação de forragem. Espécies como a palma-forrrageira, o capim-gramão, o sorgo forrageiro e o milheto podem ser cultivadas em condições de sequeiro. No entanto, quando houver disponibilidade de água, é recomendável proceder o cultivo de forrageiras de mais elevado valor nutritivo, a exemplos a cunhã, a leucena, o feijão guandu, os capim- mombaça, tanzânia e tifton, a cana forrageira e o sorgo forrageiro. O uso de esterco, sempre curtido, para adubar as pastagens, incrementa de forma substancial a produção. Ainda ressalta-se a importância do uso, em especial, durante a época seca do ano, de sal mineral proteinado industrial ou mesmo da multimistura com a seguinte composição: Milho triturado. – 30,0%; Farelo de soja – 12,0%; Cloreto de sódio iodado – 30,0%; Sal mineral. – 17,0%; Uréia – 10,0%; Flor de enxofre ou sulfato de amônia – 1,0%. Quando não se dispõe do sal mineral já pronto para uso é possível prepará-lo. Para tanto, deve-se misturar 300 g de um premix mineral (microelementos) com 16,7 Kg de fosfato bicálcico, totalizando os 17,0 Kg. Ë importante ressaltar que os animais devem passar por um período de cinco a sete dias de consumo reduzido da multimistura. Somente após esse período a multimistura pode ser colocada à vontade a disposição dos animais. Cuidados sanitários são também fundamentais para a produção dos pequenos ruminantes domésticos. Dentre outros, ressalta-se a higiene das instalações; o corte do cordão umbilical dos recém-nascidos e tratamento do coto com tintura de iodo a 10,0%; a toalete (corte) dos cascos na época seca e tratamento curativo das lesões porventura presentes; a vermifugação estratégica e a aplicação, quando justificada, de vacinas. Esses cuidados em muito contribuirão para a sobrevivência das crias e saúde dos rebanhos. Por outro lado, é importante frisar que a qualificação gerencial do caprino-ovinocultor é fundamental para que o mesmo possa inserir-se no mercado de forma competitiva. É imprescindível disponibilizar uma assistência técnica permanente, seja ela pública, em seus diferentes níveis de poder ou privada. Também, investir fortemente na qualificação dos técnicos, manejadores, magarefes etc. Ainda, entende-se como de suma importância, o crédito constante, a médio e longo prazos, e com custos compatíveis e diferenciados em função da exploração, isto é, leiteira ou de corte e da região geográfica. Em adição, é de fundamental importância buscar implementar ações que objetivem a modernização da caprino-ovinocultura com ênfase na organização das cadeias produtivas, priorizando-se o mercado e o marketing. Ressalta-se que a caprino-ovinocultura oferece diversas alternativas para a implementação de sistemas de produção. Naturalmente, a definição dos objetivos e metas deve estar vinculada diretamente às possibilidades de negócio acenadas pelo mercado. De modo geral, no entanto, evidencia-se que a cabra quando explorada para leite, afora produzir alimento de elevado valor biológico, gera mais emprego. Ao mesmo tempo, registra-se que o capital empregado gira mais rápido do que aquele investido na caprino-ovinocultura de corte. No Nordeste já se verifica que o leite de cabra não beneficiado é comercializado por, no mínimo, R$ 0,70 (setenta centavos) o litro, o que representa um acréscimo em torno 50,0% quando comparado ao preço médio praticado na bovinocultura leiteira regional. O mercado de carne dos pequenos ruminantes domésticos está em franca ascensão em todo o país. Os preços hoje praticados no âmbito da unidade produtiva giram em volta de R$ 1,80 a 2,20 por kg de peso vivo, ao passo que os preços pagos pela carne bovina, nas mesmas condições, estão em torno de R$ 1,20 por kg de peso vivo. Ressalte-se que a demanda está amplamente reprimida. No momento, cerca de 50,0% da carne ovina comercializada nas regiões Nordeste e Centro-Oeste provém do estado do Rio Grande do Sul e, da Argentina, do Uruguai e da Nova Zelândia. Isto denota uma possibilidade enorme de mercado a ser conquistado. Ressalte-se que a carne ovina proveniente do RS e daqueles países pode ser de qualidade inferior em virtude de, em grande parte, ser oriunda de animais de raças produtoras de lã. A produção de carne proveniente de animais deslanados e semi-lanados poderá atender à demanda interna e, em um futuro próximo, adentrar aos mercados internacionais. A pele por seu turno, é o produto que mais oferece possibilidade de retorno econômico quando se agrega valor. No entanto, na atualidade as peles brasileiras estão chegando aos curtumes com uma elevada porcentagem de defeitos que podem ser minimizados ou mesmo evitados procedendo-se mudanças nos sistemas de exploração, investindo-se na qualificação da mão-de-obra, reduzindo-se a idade de abate dos animais, dentre outros aspectos. Entende-se que as intempéries climáticas representam ameaças sérias ao desenvolvimento racional da caprino-ovinocultura no Nordeste brasileiro. No entanto, as tecnologias disponíveis e os acenos dos mercados, interno e externo, já permitem e impõem a modernização tecnológica e de gestão nos diversos elos das cadeias produtivas. As rápidas mudanças que estão ocorrendo no mundo levam as sociedades e as instituições a refletirem sobre a importância de se adaptarem a esta nova ordem, sob pena de sucumbirem diante das imposições de um mercado cada vez mais voltado para a globalização e, consequentemente, para a qualidade e a certificação de produtos. Os programas sociais de cunho unicamente paternalistas devem ser repensados, pois não basta produzir para competir ou mesmo sobreviver. A conquista e a manutenção de níveis dignos de bem-estar de uma população passam pela produção racional e competitiva de produtos de elevado valor biológico, representada pela qualidade desses produtos, por escala de produção, pela constância na oferta e pela segurança alimentar.

Fonte: www.clubedofazendeiro.com.br

 

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