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Simpósio Sobre Produção e Utilização de Forragens Conservadas
I. INTRODUÇÃO A ensilagem, como técnica de conservação de forragens, tem sido largamente utilizada em propriedades rurais como estratégia de reserva forrageira para períodos críticos ou mesmo para uso contínuo na alimentação animal. Porém, constata-se que o uso de silagem ou mesmo de feno, contribui significativamente no custo de produção do leite e da carne, com conseqüente redução na margem de lucro. Isto deve-se, em parte, ao alto custo de implantação de lavouras anuais como milho e sorgo e de outras culturas de alto valor forrageiro (milheto, aveia, azevém, alfafa, ...), normalmente utilizadas na produção de silagem. Diante disso, consideramos bastante pertinente o uso de resíduos agro-industriais como bagaço de laranja e rama de mandioca, entre outros, disponíveis em grandes quantidades em determinadas regiões do Brasil, e que tem apresentado alto potencial para uso na alimentação animal. Já há vários anos tem-se estudado, no Brasil e no exterior, o uso de bagaço de laranja e também da rama de mandioca ensilados na alimentação de ruminantes. Portanto, julgamos de grande importância uma abordagem deste tema com informações que poderão contribuir para que técnicos e produtores possam utilizar esses resíduos com segurança e eficiência econômica II. SILAGEM DE BAGAÇO DE LARANJA 2.1 – Considerações iniciais O bagaço de laranja in natura é um subproduto após a extração do suco da fruta e é abundante durante a estação de produção, nas regiões produtoras. O Brasil é atualmente o maior produtor mundial de laranja e de bagaço de laranja, por alguns chamado de polpa de laranja; respondendo por 29% do volume da fruta comercializada no mercado externo. O Estado de São Paulo produz praticamente toda a polpa peletizada, negociada no estrangeiro por pouco mais de dez grandes empresas (TEIXEIRA et al., 2001a). Na região Noroeste do Paraná, em 1988 iniciou-se um projeto de citricultura, liderado pela Cooperativa dos Cafeicultores e Agropecuaristas de Maringá (COCAMAR), tendo como parceiras a Cooperativa Agrária dos Cafeicultores de Nova Londrina (COPAGRA) e a empresa americana Albertson Group Brasil-Flórida, EUA, resultando na instalação da indústria de suco COCAMAR CITRUS S.A., no município de Paranavaí - PR. A partir de abril de 1998 a COCAMAR CITRUS S.A., passou a se chamar PARANÁ Citrus S.A. (TORMEN, 2001 – informação pessoal). A produção de bagaço de laranja in natura no âmbito da PARANÁ CITRUS S/A. na safra de 2000/2001 foi 103.306 toneladas. Este resíduo se não é aproveitado, constitui-se num problema sério de contaminação ambiental. Atualmente, na região norte do Paraná, mais uma indústria de suco de laranja foi instalada. Pertence a Cooperativa Agropecuária de Rolândia (COROL), no município de Rolândia - PR. Os produtores vem fazendo uso deste material na alimentação animal, porém sem um balanceamento adequado, para permitir bons rendimentos em produção de leite e carne (ÍTAVO et al., 2000d). O bagaço de laranja, constitui-se numa alternativa para ser usado na alimentação animal, principalmente bovinos, como uma alternativa aos grãos de cereais, diminuindo assim os custos e eliminando resíduos com potencial de poluição ambiental (ÍTAVO et al., 2000 b e d; TEIXEIRA, 2001a). A indústria de suco de laranja produz como subproduto o bagaço de laranja ou polpa de laranja que compreende aproximadamente 50% do total da fruta. É obtida após duas prensagens que restringe a umidade a 65 – 75%; sendo depois submetida à secagem, da qual resulta até 90% de matéria seca, para então, ser peletizada e comercializada (TEIXEIRA, 2001a e b). Segundo este mesmo autor, para facilitar o desprendimento da água e atenuar a natureza hidrofílica da pectina, principal carboidrato presente na polpa, adiciona-se hidróxido de cálcio ou óxido de cálcio antes das prensagens. Devido ao custo de secagem, há interesse das empresas em desenvolver mercados para a polpa cítrica úmida. Este interesse é maior para pequenas esmagadoras de laranja para a produção do suco natural engarrafado, que estão aumentando, ou para grandes empresas esmagadoras que não pretendem, despender altos investimentos necessários à secagem do bagaço de laranja, que pode chegar a 50% do investimento total da fábrica de processamento da fruta (CARVALHO, 1995). O bagaço de laranja tem algumas características que contribuem para que seja armazenado na forma de silagem, todavia, existem controvérsias quanto à ensilagem de alimentos com alto conteúdo de umidade. Outro fato interessante, é que as características fermentativas da silagem do bagaço de laranja foram amplamente estudadas, porém diferem muito quanto à composição, caracterizando divergências entre as informações fornecidas na literatura, devido às próprias diferenças entre os processos utilizados nas indústrias esmagadoras de Citrus. A produção de leite tem sido um dos parâmetros mais avaliados no que se refere à introdução de polpa de Citrus, desidratada e peletizada, em dietas de ruminantes. Assim sendo, o grande espaço a ser ocupado pelo produto está na substituição dos grãos de cereais, que se constituem nos suplementos tradicionalmente empregados na alimentação animal (CARVALHO, 1995). Estima-se que, nos Estados Unidos, 90% da polpa cítrica utilizada são consumidos por vacas em lactação, categoria esta para a qual a polpa mostrou-se um alimento de alto valor, principalmente quando a quantidade de forragem disponível é pequena (AMMERMAN e HENRY, 1993). 2.2. Ensilagem e uso de aditivos A prática de desidratar o bagaço de laranja é comum, mas devido ao alto custo de energia, muitas vezes esta tecnologia se torna antieconômica. A ensilagem é outro método de conservação que vem sendo usado, porém, devido às perdas faz-se necessário rever esta tecnologia de conservação, em bases econômicas. Apesar de se obter silagens de boa qualidade, deve-se destacar que o bagaço de laranja não pode ser considerada como um material adequado a esse processo de conservação devido ao baixo teor de matéria seca. A umidade excessiva normalmente, provocará perdas significativas de nutrientes e encarecimento do transporte (DE FARIA et al., 1971). O uso de diferentes aditivos na ensilagem do subproduto da indústria de suco de laranja, pode melhorar significativamente a qualidade do ensilado, merecendo ser estudado, principalmente, devido a importância econômica regional. A conservação de uma forrageira como silagem depende da fermentação natural dos açúcares a ácidos, sob condições anaeróbias, principalmente láctico e acético, por bactérias ácido lácticas, o que torna o processo de fermentação grandemente sujeito a variações. McDONALD (1981), resume as alterações bioquímicas que ocorre durante o processo de ensilagem, apontando as atividades enzimáticas das plantas, das bactérias produtoras de ácido láctico, clostrídios, enterobactérias e leveduras como principais responsáveis. O objetivo original do uso de aditivos foi garantir que as bactérias ácido lácticas dominassem a fermentação resultando em uma silagem bem conservada. A esse respeito, o melaço, que foi disponível comercialmente, forneceu uma fonte de baixo custo de carboidratos fermentáveis e foi grandemente usado por fazendeiros durante o início do século. Em 1933, Virtanen, trabalhando na Finlândia, adotou uma maneira diferente e recomendou a rápida acidificação da forragem com ácidos minerais para chegar a um pH por volta de 3,5 que foi originalmente a idéia que inibiria a atividade microbiana e das enzimas da planta. Em 1945 recebeu o Prêmio Nobel pelo seu esforço. A silagem feita com adição de ácido mineral é chamada de silagem AIV ou processo AIV (McDONALD, 1981; VAN SOEST, 1994). As perdas na ensilagem ocorrem principalmente na primeira semana de fermentação (ASHBELL e DONAHAYE, 1984) sendo atribuídas à produção de gases que ocorrem durante os primeiros dez dias (ASHBELL e DONAHAYE, 1986). perdas por lixiviação foram demonstradas em experimentos laboratoriais como sendo entre 18 e 29% da matéria seca (ASHBELL e LISKER, 1987). A conservação do bagaço de laranja, ensilado por 92 dias, em experimentos laboratoriais, utilizando dois tratamentos, o primeiro com drenagem do efluente e o outro sem drenagem, foi quantificada as perdas por liberação de gases. Os resultados revelaram que no tratamento onde o efluente não foi drenado, a MS perdida foi 21% menor comparado ao tratamento em que o efluente foi coletado (ASHBELL e DONAHAYE, 1986). Em silagens de bagaço de laranja, armazenados por 142 dias, em que o efluente foi permitido escorrer, e naquele em que o efluente foi mantido dentro do silo, não foram encontradas diferenças nos componentes químicos e microbiológicos (ASHBELL e LISKER, 1987). O bagaço de laranja geralmente contém entre 12 e 21% de matéria seca e durante o processo de fermentação mais de 22% do peso do bagaço fresco pode ser perdido pela lixiviação (ASHBELL e DONAHAYE, 1986). As perdas causadas por microrganismos aeróbios se restringe à camada superior da silagem de bagaço de laranja, e a presença desses microrganismos não explica todas as perdas registradas durante a estocagem (LISKER, 1987). WEINBERG et al. (1988), estudando o efeito do tratamento com uréia, ácido sórbico ou desidratação na silagem de bagaço de laranja encontraram que, a população microbiana dominante no bagaço de laranja, foi lactobacilos, 108 Unidade Formadora de Colônia (UFC), por grama de MS, e leveduras (105 UFC/g MS) e o maior produto da fermentação foi o etanol (16% da MS da silagem controle, sem aditivo). Houve diferença entre os tratamentos, sendo o tratamento com ácido sórbico, o único efetivo na redução das perdas de MS (15%), confirmando os resultados das análises químicas que apontaram este tratamento como o mais eficiente no processo de fermentação. Também WEINBERG et al. (1989), indicaram que a aplicação de ácido sórbico é um tratamento promissor no melhoramento das técnicas de ensilagem do bagaço de laranja, os quais reduziram significativamente as perdas na fermentação. Para ensilar o bagaço de laranja é necessário melhorar as condições para fermentação, afim de reduzir as perdas na ensilagem (ASHBELL e WEINBERG, 1988). Em estudo verificando as mudanças durante a ensilagem do bagaço de laranja, constatou-se que o alto conteúdo inicial de água, o qual é resultado do processamento industrial para obtenção do produto, afetou a qualidade do bagaço ensilado, tornando necessário um tratamento de secagem ou condicionamento do material, antes da ensilagem (MEGÍAS et al., 1993). Já SCERRA et al. (2001) recomendam, para aumentar o teor de matéria seca do bagaço de laranja, adicionar 20% de palha de trigo picada em partículas igual ou inferior a 2,5 cm, proporcionando uma relação, com base na MS, de 80/20. Num estudo sobre a dinâmica da fermentação do bagaço de laranja durante a ensilagem, ASHBELL et al. (1987), demostraram que apesar do número de leveduras ter sido menor que o número de bactérias lácticas, elas não se extinguiram através do período de ensilagem, devido à presença de açúcares fermentáveis disponíveis, suficientes para manter o metabolismo, atribuindo as perdas a estas populações. Por isso, um modo promissor para melhorar o processo de fermentação do bagaço de laranja seria inibir a população de leveduras. A população de leveduras que utilizam lactato é um dos fatores determinantes se uma silagem deteriorará ou não à exposição ao ar. A inoculação por bactérias lácticas onde o ácido resultante atua como inibidor das leveduras, devido a rápida fermentação ácida produzida (WOOLFORD, 1990), poderá contribuir para a redução da atividade de levedura durante o uso da silagem. Ensilagens de plantas forrageiras com cloreto de sódio como aditivo não permitiu o crescimento de Listeria monocytogenes, enquanto que em silagens com ácido fórmico (4%) como aditivo foi detectado o microrganismo (CARO et al., 1990). O ácido fórmico tem efeito desidratante, inibe seletivamente algumas bactérias, não inibe a fermentação láctica, promovendo uma rápida diminuição inicial do pH, tornando o ambiente propício ao desenvolvimento de Lactobacillus spp. (RUIZ e MUNARI, 1992). GORDON (1996), estudando o efeito de aditivos em silagens na performance animal, sugere que os tratamentos com ácido fórmico obtiveram valores mais elevados para a digestibilidade in vitro da matéria seca em relação às silagens não tratadas. Em experimento realizado no Paraná, ÍTAVO et al. (2000 a e c), constataram que o bagaço de laranja in natura pode ser eficientemente conservado sob a forma de silagem sem o uso de aditivos. A aplicação de aditivos, ácidos ou enzimático microbiano, não melhoraram os parâmetros de fermentação das silagens ao ponto de recomendá-los para a confecção de silagem de bagaço.
Fonte:
Geraldo Tadeu dos Santos1*, Luís Carlos Vinhas Ítavo2, Elisa Cristina Modesto3, Clóves Cabreira Jobim1*, Júlio César Damasceno1*
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