Boletim do Cordeiro

Desempenho de Cordeiros Alimentados com Diferentes Níveis Protéicos


Introdução O consumo de alimentos é fundamental para o organismo, por determinar o nível de nutrientes ingeridos e, conseqüentemente, a resposta animal (Van Soest, 1994). Este consumo é controlado por um mecanismo físico, que reflete a distensão do retículo-rúmem, e outro fisiológico, que reflete a homeostase (Conrad et al., 1964). A concentração e a qualidade da proteína na dieta podem modificar o consumo pelos ruminantes, alterando tanto o mecanismo físico, como o fisiológico. Redução no teor de proteína bruta (PB) da dieta para níveis abaixo de 12%, ou na disponibilidade de nitrogênio, poderá reduzir a digestão da fibra e, conseqüentemente, restringir o consumo (Roseler et al., 1993). Vários autores observaram aumentos no consumo de alimentos, à medida que o nível de proteína bruta era elevado de 8 a 9% para 13 a 14% (Meherez & Orskov, 1978; Vieira et al., 1980). Para os trópicos, pode-se considerar o consumo de matéria seca (MS) pelos ruminantes em torno de 3 a 5% do peso vivo (PV), dependendo do estado fisiológico do animal (Devendra, 1978, citado por Lizieire et al., 1990). O efeito da adição de proteína sobre o consumo se faz sentir mais nitidamente, quando ela se encontra em níveis muito baixos, uma vez que a deficiência de proteína degradável na dieta limitaria a atividade microbiana, afetando assim, a ingestão e a digestibilidade dos nutrientes (Orskov & Robinson, 1981). As principais fontes de proteína para os ruminantes são a microbiana e a dietética que escapa da degradação no rúmen, as quais, digeridas no abomaso e intestino delgado, suprem os aminoácidos para o ruminante (Broderick et al., 1991). Storm et al. (1983) indicaram a eficiente utilização da proteína microbiana ruminal de cordeiros em crescimento mantidos pela nutrição intragástrica. Porém, a proteína fornecida pela síntese microbiana ruminal é inadequada para sustentar a alta taxa de crescimento, requerido nos sistemas intensivos de produção. A melhoria do nível nutricional pode proporcionar aumento no custo de produção, o que pode tornar a atividade de baixa rentabilidade. Dessa forma, o consumo, o ganho de peso, a conversão alimentar e o rendimento de carcaça, são importantes parâmetros na avaliação do desempenho animal (Ferreira et al., 1998). Trabalhando com cordeiros alimentados com rações, contendo cereais e farelo de soja, Andrews & Ørskov (1970) recomendam de 100 a 200 g de PB/kg MS, para animais de 16 a 40 kg peso vivo. As respostas para taxa de crescimento foram curvilíneas para o conteúdo de proteína dietética e para o rápido crescimento de cordeiros, ganhando 300 g/dia. Foi concluído pelos autores que um ótimo conteúdo de proteína bruta dietética estaria ao redor de 160-170 g/kg MS. Ørskov et al. (1971) alimentaram cordeiros com rações, contendo cevada e farinha de peixe em níveis de 110, 157 e 194 g de PB/kg MS ad libitum, tendo encontrado os seguintes ganhos de peso diários: 0,191; 0,270 e 0,330 kg para machos e 0,177; 0,225 e 0,301 kg para fêmeas. A taxa de crescimento, o consumo de alimento e a eficiência alimentar foram melhorados com o aumento do conteúdo de proteína dietética. As diferenças no consumo de ração foram menores nos níveis de proteína mais altos. Titi et al. (2000), comparando o desempenho de cordeiros Awassi e cabritos Black, alimentados com dietas contendo diferentes níveis protéicos, 12, 14, 16 e 18% de PB, verificaram para os cordeiros Awassi, ganhos de peso de 0,099; 0,171; 0,208 e 0,189 kg/dia. Uma hipótese do bom desempenho, com o nível de 16 e 18% de PB, poderia ser a idade dos animais usados no experimento (entre 110 e 150 dias). Normalmente, os animais depositam mais proteína no corpo durante o crescimento, indicando que podem utilizar rações com níveis de proteína mais altos (Widdowson & Lister, 1991). Ely et al. (1979), utilizando cordeiros 3/4 Suffolk + 1/4 Rambouillet, recebendo dietas com 13 e 16% de PB, em confinamento, encontraram ganhos de peso de 0,284 e 0,267 kg, respectivamente, para peso médio ao abate de 49,9 kg. Hussein & Jordan (1991) verificaram efeito do nível de proteína sobre o ganho de peso dos cordeiros, terminados com dietas contendo 13,3 e 14,9% de PB, observando-se ganhos de 0,235 e 0,250 kg, respectivamente, em que se constatou conversão alimentar média de 6,0. No sistema de terminação de cordeiros em confinamento, a alimentação (concentrado e forrageiras conservadas) aumenta o custo da carcaça produzida. Em estudos conduzidos por Macedo (1998), o custo de produção do quilograma da carcaça foi de R$2,26/kg para os cordeiros em pastagem e R$ 2,31 para os cordeiros confinados. Macedo (1995) e Otto et al. (1996), verificaram custos de R$ 1,42 e R$1,79/kg de carcaça produzida. Existem vários trabalhos mostrando as alternativas para a produção de carne dos cordeiros, dentre elas o confinamento. Porém, são escassos os estudos de viabilidade econômica, os quais são fundamentais para que o criador possa fazer sua opção de maneira objetiva. Assim, esse trabalho teve como objetivo acompanhar o ganho de peso, consumo, conversão alimentar e custo do quilograma de carcaça de cordeiros em confinamento, recebendo dietas com diferentes níveis (12, 16, 20 e 24%) de proteína bruta. Material e Métodos O experimento foi conduzido no setor de Ovinocultura da Fazenda Experimental de Iguatemi, pertencente à Universidade Estadual de Maringá-PR. Foram utilizados 32 cordeiros "tricross" (½ Texel + ¼ Bergamácia + ¼ Corriedale), sendo 16 machos inteiros e 16 fêmeas, com idade média de 5 meses e peso vivo médio de 30 kg. Dez dias antes do início do experimento, os animais foram everminados com vermífugo à base de ivermectina. Todos os animais foram identificados, pesados e distribuídos em quatro tratamentos, cada um com oito cordeiros (quatro machos e quatro fêmeas), recebendo dietas isoenergéticas com 72% NDT (NRC, 1985), variando os níveis de proteína bruta (12, 16, 20 e 24%). Os animais permaneceram em baias individuais, cobertas, com piso ripado e suspenso, recebendo água à vontade, durante todo o período experimental. O ensaio de alimentação teve duração de 57 dias. O período experimental foi precedido de um período de adaptação de 10 dias. As composições das dietas utilizadas em cada tratamento estão especificadas na Tabela 1. Foram avaliados o ganho de peso médio por animal, o consumo de matéria seca, a conversão alimentar e o custo de produção (R$/kg de carcaça). Os animais foram pesados no início do experimento e a cada 14 dias. As rações eram fornecidas uma vez ao dia, totalizando, em média, 5,0% do PV, de maneira a proporcionar sobras diárias de aproximadamente 20%. A proporção volumoso: concentrado foi de 30:70. As quantidades fornecidas eram pesadas diariamente e ajustadas de acordo com o peso médio dos animais. O consumo de matéria seca foi determinado pela diferença entre o oferecido e as sobras. O animais foram abatidos com idade média de 7 meses e peso vivo médio de 40 kg. Os dados de consumo de matéria seca (MS) e ganho de peso diário (GPD) foram submetidos à análise de variância, utilizando-se o sistema de análises estatísticas e genéticas (SAEG) de acordo com o seguinte modelo: em que: Yijk é o valor observado da variável estudada no indivíduo j recebendo o tratamento i;  é a constante geral; Si é o efeito do sexo i; 1 = macho, 2=fêmea; Nj é o efeito do nível de proteína bruta na dieta j, j=12; 16; 20; 24; SNij é o efeito da interação entre o sexo e o nível de proteína bruta na dieta; b1 é o coeficiente de regressão linear da variável estudada, em função do peso inicial; PI é o peso inicial (usado como covariável no modelo inicial); eijk é o erro aleatório associado a cada observação Yijk. Os dados de conversão alimentar foram submetidos à análise de variância, utilizando o sistema de análises estatísticas e genéticas, SAEG (Euclydes, 1993), seguindo-se o modelo acima, retirando-se a covariável PI. Para determinação do comportamento das variáveis dependentes, em função dos níveis de proteína bruta na dieta, procedeu-se ao desdobramento dos efeitos em polinômios ortogonais. Resultados e Discussão As médias para ganho de peso diário, consumo médio diário de ração e conversão alimentar apresentam-se na Tabela 2. A análise de variância revelou diferença significativa (P=0,0742) para ganho de peso, indicando que houve efeito linear dos níveis protéicos. Não houve efeito (P=0,1183) de sexo para as variáveis analisadas. Foi observado efeito linear (P=0,00001) do peso corporal sobre o ganho de peso. A média geral observada para ganho de peso foi de 0,162 kg/dia. A equação de regressão ajustada ( = 0,1361+0,0015x) para ganho de peso mostra aumento de 0,0015 kg/dia para cada 1% de aumento no nível de proteína dietética (Figura 1). Os valores de ganho de peso estimados de acordo com a equação de regressão para os níveis de 12, 16, 20 e 24% de PB são, respectivamente: 0,154; 0,160; 0,166; e 0,172 kg. As dietas experimentais neste trabalho proporcionaram, de acordo com os dados obtidos na equação de regressão, ganhos de peso inferiores aos observados por Macedo (1995), Pérez et al. (1998), Garcia et al. (1998) e Titi et al. (2000). Sabe-se que os ovinos apresentam maior velocidade de ganho de peso antes dos 5 meses, atingindo 30 kg, quando criados em pastagem, próximo a esta idade. Entretanto, em várias regiões do Brasil, os consumidores preferem ovinos com carcaças mais pesadas. Isso poderá ser conseguido terminando-se os cordeiros no confinamento, evitando assim, abate de ovinos com idade mais avançada. Da mesma forma que neste trabalho, em pesquisa realizada pela EMBRAPA (1998), foi observado baixo ganho de peso em cordeiros, após os 5 meses de idade. O baixo ganho de peso pode ser atribuído a idade fisiológica dos cordeiros que participaram do experimento, pois a capacidade máxima para esta variável ocorre até as 20 semanas de idade, conforme demostrado por Sainz (2000). O consumo de matéria seca (CMS) pode ser afetado pelo nível de proteína da dieta (Meherez & Orskov, 1978; Huston et al., 1988), entretanto, a análise de variância apresentada não revelou diferenças para esta variável (P1), indicando não haver efeito dos níveis protéicos sobre o CMS. Este comportamento pode ser atribuído ao estágio de desenvolvimento dos cordeiros, pois o requerimento protéico diminui com o avançar da idade. Também não foi observado efeito significativo da interação entre sexo e níveis protéicos. A diferença sexual dos animais na idade que participaram do experimento ainda é pouco pronunciada, para que a interferência hormonal pudesse provocar diferença do CMS entre sexos. Houve aumento linear do consumo de ração (P=0,00001), à medida que se elevou o peso corporal dos animais, corroborando Valadares et al. (1997). O consumo diário estimado de matéria seca dos cordeiros (1,26 kg/animal/dia), se encontra próximo da média recomendada pelo NRC (1985), para ovinos desta categoria que é de 1,3 kg de MS animal/dia. O CMS observado no presente trabalho, foi semelhante ao encontrado por Pérez et al. (1998) e Orskov et al. (1971) e inferiores aos observados por Pilar et al. (1994), para os genótipos Hampshire Downv (1,093), Texel (0,828), Corriedale (0,874), Suffolk x Corriedale (0,924 ) e Ile de France x Corriedale (0,869 ) e Pires (1999), que observou CMS (kg) de 0,733 para Ideal, 0,853 para ½Texel + ½ Ideal e 0,887 para ¾ Texel + ¼ Ideal. A análise de variância mostrou efeito linear (P=0,0693) da conversão alimentar, em função dos níveis protéicos (Figura 2). Não houve efeito significativo (P1) de sexo sobre a conversão alimentar. A equação de regressão ajustada ( = 8,94-0,06065x) para conversão alimentar mostra redução de 0,060 para cada 1% de aumento no nível de proteína dietética. Orskov & McDonald et al. (1971) também verificaram uma melhor eficiência de conversão alimentar, com o aumento da proteína dietética. Os índices de conversão alimentar, de acordo com a equação de regressão acima para os níveis de 12, 16, 20 e 24% de PB são, respectivamente: 8,21; 7,97; 7,73 e 7,48. Vários pesquisadores avaliaram a conversão alimentar de dietas com diferentes níveis de proteína bruta, para cordeiros. Destacam-se Silva et al. (1994), que encontraram 5,95 para cordeiros Santa Inês, com dieta contendo 16% de PB; Monteiro et al. (1998) que registraram 3,87 para cordeiros mestiços Suffolk em dieta com 17% PB; Pérez et al. (1998) obtiveram conversão de 6,26 e 6,05 para cordeiros Santa Inês e Bergamácia, respectivamente, com dieta contendo 23% PB e Pires et al. (1999), observando valor de 8,82, para cordeiros da raça Ideal, confinados com dieta contendo 13,8% PB. Substituindo-se, respectivamente, o nível utilizado por Monteiro et al. (1998), Pérez et al. (1998) e Pires et al. (1999), na equação de regressão do presente trabalho, encontraram-se valores de conversão alimentar de 7,90; 7,55 e 8,10. Os índices de conversão alimentar, observados neste estudo, encontram-se dentro de uma amplitude aceitável, considerando que os animais utilizados já haviam ultrapassado o período de maior desempenho. A planilha de cálculo para análise econômica da produção de carne de cordeiros foi montada com os dados colhidos no experimento, entretanto, considerou-se o módulo de 100 cordeiros para melhor comparação dos dados. Os valores do custo de produção apresentam-se na Tabela 3. O custo médio do quilograma da carcaça produzida foi de R$ 2,53, sendo comercializado a R$ 4,50, verificando-se retorno econômico para machos e fêmeas em qualquer um dos níveis utilizados na terminação dos cordeiros. A margem de lucro foi decrescente, à medida que se elevou o teor de proteína na dieta a despeito do comportamento crescente do ganho de peso médio diário e decrescente da conversão alimentar. Este fato é reflexo da razão custo/benefício no acréscimo de proteína bruta na dieta, comprovando que a proteína é o nutriente mais caro da ração. Os custos de produção das carcaças (R$/kg) obtidos neste trabalho mostram-se superiores aos 1,42 encontrados por Macedo (1995), terminando cordeiros em confinamento, utilizando-se resíduo de destilaria de álcool, o que explica o baixo custo da alimentação, baixando conseqüentemente as despesas totais; aos 1,79 observados por Otto et al. (1996) e próximo aos 2,31, encontrado por Macedo (1998), confinando cordeiro com dieta contendo 18% de PB e 72% de NDT. Conclusões O ganho de peso dos cordeiros aumentou com os níveis de proteína na dieta. O consumo de matéria seca da dieta não foi modificado em função do aumento nos níveis protéicos. A conversão alimentar foi melhorada com o aumento dos níveis protéicos. Todos os níveis de proteína bruta testados (12, 16, 20 e 24%) mostraram viabilidade econômica na terminação de cordeiros, entretanto o maior retorno foi conseguido com a ração contendo 12% PB, devendo ser o nível recomendado.

Fonte: Marilice Zundt, Francisco de Assis Fonseca de Macedo, Elias Nunes Martins, Alexandre Agostinho Mexia, Sandra Mari Yamamoto

 

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