Boletim do Cordeiro

CRIAR OVINOS DÁ TRABALHO? NEM TANTO...

A ovinocultura de modo geral é uma atividade que segue o homem há milênios. Desde então, técnicas de criação, manejo, pastoreio, casqueamento e tosquia foram desenvolvidas. A saúde, no entanto, embora seja a parte mais importante do rebanho a ser tratada, sempre foi bem estudada. Trata-se de um ponto vulnerável na economia, pois os ovinos são animais de ciclo de vida curto e as doenças aparentam ser concentradas constantes. Na verdade, o surgimento de doenças não é nem constante nem concentrado, diante do encurtamento do ciclo de vida do animal. O criador, sim, é que está acostumado à criação de bovinos, cujo ciclo é longo e as intervenções sanitárias também acontecem em ciclo mais longo. Quando se compara o ciclo do ovino com o de um frango, tudo muda de figura, pois o ciclo do frango é curtíssimo. Assim, pode-se dizer que o frango está para o ovino, assim como o ovino está para o bovino!

Nordeste - Os animais criados no Nordeste brasileiro apresentam uma incrível rustícidade. O próprio clima e as condições climáticas da região contribuem para este fator de boa saúde para os animais, a saber:

1 - O clima seco é ideal ao combate de verminoses e multiplicação de bactérias e fungos.

2 - Baixo índice pluviométrico, significa pouca umidade e um solo constantemente mais drenado. Em média, as chuvas nordestinas atingem 600-700 mm no ano, mas há regiões em que mal atingem 200 mm. Os vermes odeiam chão seco e adoram chão úmido!

3 - Mais horas de sol por ano. No normal situa-se entre 2.800 a 3.000 horas de sol. Isto contribui favoravelmente para com a sanidade animal, pois o sol é um desinfetante natural.

4 - Grandes áreas para o rebanho se locomover e encontrar o alimento, garantindo assim uma baixa taxa de lotação, com menos animais por área disseminando ovos, larvas e cepas.

Sul, Sudeste - Bem ao contrário destes fatores citados, o Sudeste e o Sul do país apresentam todas as condições para desenvolver maior quantidade de problemas sanitários. A umidade é maior, com índice pluviométrico sempre acima de 1.500mm e, não raramen­te, passando de 2.500 mm em algumas regiões, facilitando as altas lotações de animais em pastagens, as quais - por sua vez - são um atrativo para as enfermidades. Há casos de rebanhos no Sudeste com taxa de mortalidade superior a 70%! Um verdadeiro absurdo, mas incrivelmente real.

Não é á toa que muita gente começa sua criação, sorrindo, e - dentro de pouco tempo - já está querendo desistir. A culpa, no entanto, não é dos animais, nem da raça criada, mas é principalmente do próprio dono, que - a rigor - sequer compra um livro para estudar como criar. Muitos fazendeiros acham que podem mudar de bovinos para ovinos simplesmente trocando os animais no campo. Quanto muito, constroem um galpão para o sono tranqüilo dos ovinos. A realidade ê que os ovinos precisam ser enxergados como fonte de dinheiro, como objetivo do empreendimento e, como tal, precisam ser estudados. Como pode um industrial ficar rico se não conhecer - muito bem - a matéria-prima que utiliza?

Cada um na sua - Existem enfermidades típicas de clima seco (Nordeste) e outras de clima temperado (Sudeste) e outras de clima frio (Sul). Bem como existem enfermidades típicas de semi-árido, de cerrados, de campos, de brejos, de litorais, etc. O fazendeiro precisa conhecer seu solo, sua situação geográfica, suas potencialidades em geral para, depois, projetar suas realizações arquitetônicas. De nada adianta construir uma casa linda, um aprisco maravilhoso, se a região for insalubre!

No Nordeste, certa feita, aconteceu um período intenso de chuvas e, somente numa fazenda, morreram mais de 1.000 borregos em uma única semana! É claro que isto foi uma calamidade que dificilmente se repetirá, mas pode acontecer com maior freqüência em regiões onde a variação de chuva vai de 1.500 a 2.500 milímetros.

As enfermidades mais comuns no Sul e no Sudeste foram observadas em vários rebanhos e constatou-se que a Cerato-Conjuntivite Infecciosa e o Ectima Contagioso são as primeiras a aparecer, seguindo-se a Pododermatite ("foot-root", cuja pronúncia é "fut-rut"). Após o segundo ano surgem a Coccidiose (Eimeriose) e Verminoses de vários tipos, sendo a principal provocada pelo Haemonchus contortus (pronuncia-se "ernoncus contortus").

Prevenções - Para combater os males são sugeridas as seguintes medidas:

- Quarentena para animais re­cém adquiridos ou que viajaram e tiveram contato com outros rebanhos.

- Calendário profilático de vacinações e vermifugações no decorrer do ano.

- Medidas de manejo, apartações em lotes por idade.

- Desinfecção mensal ou mesmo quinzenal de instalações e áreas de repouso dos animais, com desinfetantes apropriados e concentrações ideais para a desinfecção (geralmente com cal virgem seco, creolina ou fenóis, formol e vassoura-de-fogo).

- Vazio sanitário em época es­tratégica do ano (manter os pastos sem animais).

- Evitar altas lotações ou aglo­merações desnecessárias de animais.

- Cuidado com a chuva, a lama, ou qualquer umidade. A mesma chuva que abençoa e faz crescer o capim, também abençoa os vermes e bactérias que
estão no solo úmido e nas gramíneas.

- Cuidado com os ventos gelados. Correntes de ar frio são um perigo para animais novos.

- Manter uma farmácia com vários tipos de medicamentos, para males diversos é de suma importância para a exploração animal.

- Inspeção periódica rigorosa.

Intervenções sanitárias na vida útil dos animais domésticos de corte

Discriminação

Cordeiro pasto

Cordeiro confinado

Ave confinada

Suíno confinado

Bovino pasto

Bovino confinado

Idade p/ abate (meses)

10

4

1,6

5,3

36

24

Safras (ao ano)

1,2

3

7

2,2

0,33

0,5

Intervenções por safra

4,2

2

48

140

26

14

Intervenções por ano

5,04

6

336

308

8,6

7,0

Intervenções comparadas com o bovino a pasto

15,12

18

1.008

924

8,6

7,0

Segundo o Dr. J. A. Watt, o melhor conselho que recebeu, em toda sua vida, foi o seguinte: "quando o ovino não se desenvolve, seja qual for o local onde esteja e as condições onde vive, antes se procurar a doença, obscura ou não, deve se investigar sempre a dentição do animal". De fato, durante muitos anos este conselho salvou centenas de e ovelhas em sua fazenda". Muitas doenças começam pela má nutrição e esta pode começar por problemas de mastigação. Assim, nada melhor do que verificar os dentes, assim que haja suspeita. O simples ato de pegar o animal para verificar a dentição já poderá mostrar outras anomalias. A inspeção periódica, portanto, é muito importante, em qualquer tipo de criação.

Comparações - Na mesma situação, outros tipos de animais (bovinos, eqüinos, aves, etc.) também passam por problemas de saúde e, então, é interessante fazer uma analogia entre eles, tendo como parâmetro o ciclo de vida e as intervenções sanitárias no decorrer dela. Os resultados comuns são os mostrados na Tabela anterior.

AVES - Sem o dúvida, as aves são as campeãs em ganho de peso e produção de carne. A melhoria das instalações, nutrição e genética fazem com que um pinto de 60g ao 1o dia de vida chegue a 2,6 kg de peso nos 48 dias. Isto é fantástico, mas a ave paga e um preço alto. O ciclo de produção é muito cu­to, mas a alta densidade de aves em um galpão exige intervenção sanitária diária. De fato, tanto o vermífugo coccidiostático, os antibióticos e os promotores de crescimento estão presentes diariamente na ração, não se esquecendo das vacinações no 1o dia de vida e reforço na água na 1a e 2a semana. Por isto o frango é o campeão de produção, mas também é campeão de intervenção sanitária. Ou seja, quanto mais curto o ciclo de vida dos animais, maior deverá ser aa atenção do patrão. Preguiça de patrão pode existir em grandes criações, mas jamais para pequenos animais. Total de intervenções por ano: 336. Em comparação com o ciclo do bovino resulta em 1.008 intervenções!

SUÍNOS - Os suínos levam em média 160 dias para chegar ao abate passeando por 3 seções (maternidade, creche, terminação) durante o tempo de sua vida. A intervenção sanitária é diária, pois o vermífugo assim como coocci-dioststático está presente na ração. Sem falar no controle pré-natal das porcas e no manejo sanitário antes e após a estação de monta; São 308 intervenções por ano. Comparando com, o ciclo do bovino totalizam 924 intervenções!

CORDEIROS - O cordeiro deve ser vermifugado a cada 30,45 ou até 70 dias (dependendo do solo, da umidade, da lotação, etc.) e vacinado contra as clostridioses na desmama (45 dias). Rebanho bem manejado evita (ectimas, conjuntivite, etc. O cordeiro de I pasto é abatido aos 8-10 meses. Quanto maior for o tempo, mais intervenções sanitárias! A ovelha permanece 6-8 anos no pasto, exigindo - sempre - as intervenções normais. São 6 intervenções
I por safra. Comparando com o bovino daria 18 intervenções

BOVINO CONFINADO - Exige 20 intervenções ao ano, se a lotação for alta, no local, antes do confinamento. Geralmente são animais de cruzamento industrial precoce ou superprecoce com abate mais cedo, reduzindo as intervenções sanitárias no decorrer de sua vida. Total: 3 para Aftosa, 3 para vermífugos, 2 para manqueira, 2 para bicheiras, 2 anticarrapatos, 2 anti mosca-do-chifre.

BOVINO A PASTO - Exige 26 intervenções sanitárias até os 30 meses, conforme calendário. São 2 para Aftosa por ano, mais 2 vermífugos ao ano, mais 1 contra manqueira ao ano, mais 2 pulverizações, mais 2 contra bicheira, mais a castração e 1 cura. Estas intervenções são facilitadas, pois diversas acontecem no mesmo dia (Aftosa, vermífugo, pulverização, etc). Isso não ocorre com os ovinos.

NOTA IMPORTANTE - Todas estas comparações são exemplos de um comportamento médico e não servem como regra geral. Afinal, cada fazenda possui o seu sistema de produção e o seu tipo de manejo sanitário particular. Simplesmente adotar o manejo de outra fazenda pode dar certo, mas também pode não ser 100% eficiente. Assim, é mais prudente aprender a experiência das outras fazendas e, por meio delas, adotar um manejo sanitário completo para a propriedade.


Fonte: Revista O Berro n° 58 - Setembro de 2003 - pág.07

 

 

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