Uma nova alternativa tecnológica começa a despertar maior interesse
no agronegócio do polo Juazeiro-Petrolina: a integração, no
mesmo espaço, do cultivo de fruteiras irrigadas com a criação
de animais, particularmente ovinos.
Em pomares de mangueiras
e coqueiros é crescente a conjunção dessas atividades, apoiada
por trabalhos da pesquisa. Em plantios de videiras e goiabeiras,
a mistura ainda é muito incipiente, mas apresenta a mesma tendência,
a partir do interesse individual de alguns produtores. A base
do sistema é o pastejo rotacional dos animais no pomar, em um
piquete móvel de cerca eletrificada, simulando uma "roçadeira
viva".
Os benefícios dessa integração não são apenas de ordem econômica.
Evidentemente que este aspecto é o primeiro a ser destacado
na avaliação desse sistema que combina fruticul-tura e pecuária,
já que o mesmo pode propiciar uma acentuada redução no custo
de produção da fruta. Ao se aproveitar a mesma área com duas
atividades, ganha-se uma maior eficiência no uso da terra e
obtém-se uma melhor distribuição no fluxo de caixa. Os custos
podem cair expressivamente com a eliminação ou a redução no
número de capinas manuais, roçagens me-cânicas e aplicação de
herbicidas, tarefas substituídas pela ação dos ovinos. Outra
vantagem adicional é a poda da "saia" da mangueira que também
é feita pelos animais. Estudos da Em-brapa em áreas comerciais
de mangueiras e de coqueiros comprovaram ser viável a obtenção
dessas vantagens, sem qualquer efeito negativo na produtividade
da fruteiras.
Há, contudo, outras vantagens que contribuem para elevar a sustentabilidade
da fruti-cultura e credenciam a fruti-ovinocultura como instrumento
potencial para ser incorporado ao sistema de produção integrada
ou à produção orgânica de frutas. A médio e longo prazos, ob-serva-se
redução nos custos com aplicação de fertilizantes, devido à
deposição contínua e con-centrada de fezes e urinas dos animais,
melhorando, simultaneamente, a estrutura do solo e a sua capacidade
de retenção de umidade.
Nesta mesma linha, pode-se prever a redução ou atenuação de problemas
ambientais por meio da eliminação, parcial ou total, do uso
de herbicidas e da redução dos problemas de compactação do solo
em áreas intensivamente mecanizadas. Da mesma forma, é previsível
a diminuição da incidência de pragas e doenças, considerando
que os animais consomem quase todo o material decomponível favorável
a disseminação de micro-organismos e de vetores no pomar.
Uma questão fundamental, no entanto, é que esta tecnologia não
pode ser implantada de forma aleatória, com a simples junção
dos dois elementos do sistema no mesmo espaço. Há parâmetros
técnicos que, se não forem bem manejados podem causar mais danos
que trazer benefícios. Em primeiro lugar é preciso ter em conta
que, a atividade pecuária, no consórcio, deve ser considerada
como complementar à fruticultura. Seus procedimentos, portanto,
devem se adequar às necessidades maiores da fruteira cultivada.
Assim, a quantidade de animais a ser criada é definida em função
das práticas de cultivo demandados pela fruteira, do tipo de
vege-tação espontânea existente na área e até do sistema de
irrigação empregado. O objetivo é man-ter os animais na área
do pomar por 7 a 9 meses, retirando-os nos períodos de maior
vulnera-bilidade da planta, como floração e frutificação. Embora
essa seja a orientação inicial da Em-brapa, já há produtor que
mantém os animais no pomar de mangueiras durante todo o ano,
sem aparentes danos à produtividade da cultura. O sistema usado
pelos produtores, contudo, sem o uso do piquete de cerca elétrica,
apesar de bom para os animais, pouco benefício ofere-ce às fruteiras.
Os ovinos são mais indicados para esse consórcio porque se alimentam
de quase todas as espécies de estrato herbáceo que vegetam nos
pomares da região. Não há, ainda, uma posi-ção definida, com
relação a melhor raça ovina para esse sistema. Como princípio
geral deve-se considerar que os animais de raças mais especializadas
exigem pasto de melhor qualidade para expressar todo o seu potencial
genético. Nesse sentido, para pastos do tipo nativo, que comu-mente
ocorre nos nossos pomares, podem ser usados animais mestiços
das raças Santa Inês, Morada Nova e Somalis. Para pastos cultivados
de maior potencial - o cultivo de pastos
entre as fruteiras é outra variante do sistema - como
o tiffon ou o pangolão, os melhores resultados deverão obtidos
com o uso de animais cruzados Santa Inês ou Somalis com raças
mais especi-alizadas para carne, como a Dorper, a Suffolk, a
Texel ou a Ile-de-France.
Outro aspecto a ser considerado é com relação à categoria animal
- machos para recria e engorda ou ovelhas de cria? A vantagem
maior, sem dúvida, reside na primeira opção. Como se trata de
animais jovens, de menor porte, o manejo requerido é mais simples.
Os animais que atingem o peso de abate vão sendo retirados do
sistema, vendidos e substituídos por outros animais. Esta rotatividade
propicia, ao final do ano, uma alta taxa de lotação por unidade
de área. No caso das ovelhas de cria há que se destacar um complicador
para aquelas fruteiras que exigem a retirada dos animais durante
o período de floração/frutificação - o produtor teria que dispor
de uma outra área, com pastos, para onde transferir os animais.
O
cultivo de fruteiras sob irrigação tem se expandido rapidamente
na região e a sua consorciação com ovinos
oferece condições potenciais
de, através da redução de custos, pro-porcionar melhores condições
de competitividade aos seus produtos nos mercados nacional e
internacional. A Embrapa Semi-Árido, vislumbrando esse potencial,
está buscando parcerias com produtores para expandir seus trabalhos
em busca da consolidação e da otimização dessa alternativa como
instrumento de apoio ao agronegócio da fruticultura irrigada
da região.