O Nordeste brasileiro
semi-árido tem sido assumido, durante séculos, como área de
vocação pecuária, especialmente, para a exploração dos ruminantes
domésticos. No entanto, ressalte-se os caprinos e ovinos face
a característica de adaptação a ecossistemas adversos o que
é fortemente influenciado pelos seus hábitos alimentares. Alia-se
a este fato a característica reprodutiva de poliestria contínua,
isto é, apresentam estro (cio) e ovulam ao longo de todos os
meses do ano, apresentada por esses pequenos ruminantes domésticos
na região, onde o fotoperíodo não constitui fator limitante
para a reprodução, uma vez atendidas as necessidades de alimentação,
nutrição e de saúde dos rebanhos. Por conseguinte, dentre as
várias alternativas encontradas para a exploração agropecuária
racional no Nordeste brasileiro destaca-se a caprino-ovinocultura
como uma alternativa econômica viável de geração de emprego
e renda apesar das intempéries climáticas que, ciclicamente,
se abatem sobre a região.
Por
outro lado, deve-se registrar que o simples fato desses animais
apresentarem potencial produtivo ao longo do ano, não tem atendido
aos requisitos básicos de uma atividade voltada para as demandas
advindas de um mercado cada vez mais exigente. Assim, a produção
de caprinos e ovinos, com base em sistemas empíricos de exploração
tradicionalmente praticados na Região Nordeste, não mais constitui
solução para a fixação do homem à terra. Por conseguinte, os
novos conceitos de organização e gestão da propriedade rural,
isto é, da unidade produtiva, bem como, a adoção de tecnologias
são necessários para a inserção do caprino-ovinocultor na economia
de mercado e para a promoção da qualidade de vida do homem no
campo, em patamares condizentes com as exigências das organizações
internacionais de desenvolvimento econômico e social.
A
captação e acúmulo de água, por diferentes formas, constitui
o alicerce para a manutenção do homem no campo e a exploração
pecuária nas condições do semi-árido nordestino brasileiro.
Por outro lado, para a implantação e/ou implementação racional
da caprino-ovinocultura na Região, preferencialmente, deve-se
investir nos tipos raciais ou raças naturalizadas ou ainda em
raças exóticas que, por sua origem, apresentem maiores possibilidades
de se adaptarem às condições edafoclimáticas locais. O foco
da exploração, por sua vez, deve estar centrado no cliente;
na organização e gestão da unidade produtiva; em objetivos claramente
definidos e em estratégias racionais e factíveis de execução
favorecendo, dessa forma, o alcance dos objetivos. Por outro
lado, a produção, a conservação e a disponibilidade de forragem
de elevado valor nutritivo, em especial, para os animais adultos
mais produtivos e os jovens, nas fases de cria e recria; descartar
os animais menos produtivos ou improdutivos; perseguir a minimização
dos custos e inserir a atividade na economia de mercado são
pontos fundamentais para se alcançar o sucesso nas explorações
caprina e ovina.
Dentre as estratégias passíveis de adoção ressaltam-se, o descarte
orientado através do qual se retira do rebanho os animais improdutivos
ou menos produtivos e os machos excedentes, castrados ou inteiros.
Com essa prática, reduz-se a pressão de pastejo e, em conseqüência,
promove-se uma maior disponibilidade de alimento para os animais
produtivos. O controle dos rebanhos por meio da escrituração
zootécnica, a qual permite identificar, individualmente, os
animais mais produtivos e exercer pressão de seleção, favorecendo
assim acelerar o melhoramento genético dos rebanhos. Também,
investir na introdução de forrageiras adaptáveis e produtivas,
estimular e dar suporte ao cultivo de forrageiras adaptadas
e a programas de conservação de forragem. Espécies como a palma-forrrageira,
o capim-gramão, o sorgo forrageiro e o milheto podem ser cultivadas
em condições de sequeiro. No entanto, quando houver disponibilidade
de água, é recomendável proceder o cultivo de forrageiras de
mais elevado valor nutritivo, a exemplos a cunhã, a leucena,
o feijão guandu, os capim- mombaça, tanzânia e tifton, a cana
forrageira e o sorgo forrageiro.
O
uso de esterco, sempre curtido, para adubar as pastagens, incrementa
de forma substancial a produção. Ainda ressalta-se a importância
do uso, em especial, durante a época seca do ano, de sal mineral
proteinado industrial ou mesmo da multimistura com a seguinte
composição: Milho triturado. – 30,0%; Farelo de soja – 12,0%;
Cloreto de sódio iodado – 30,0%; Sal mineral. – 17,0%; Uréia
– 10,0%; Flor de enxofre ou sulfato de amônia – 1,0%. Quando
não se dispõe do sal mineral já pronto para uso é possível prepará-lo.
Para tanto, deve-se misturar 300 g de um premix mineral (microelementos)
com 16,7 Kg de fosfato bicálcico, totalizando os 17,0 Kg. Ë
importante ressaltar que os animais devem passar por um período
de cinco a sete dias de consumo reduzido da multimistura. Somente
após esse período a multimistura pode ser colocada à vontade
a disposição dos animais.
Cuidados sanitários são também fundamentais para a produção dos pequenos
ruminantes domésticos. Dentre outros, ressalta-se a higiene
das instalações; o corte do cordão umbilical dos recém-nascidos
e tratamento do coto com tintura de iodo a 10,0%; a toalete
(corte) dos cascos na época seca e tratamento curativo das lesões
porventura presentes; a vermifugação estratégica e a aplicação,
quando justificada, de vacinas. Esses cuidados em muito contribuirão
para a sobrevivência das crias e saúde dos rebanhos.
Por
outro lado, é importante frisar que a qualificação gerencial
do caprino-ovinocultor é fundamental para que o mesmo possa
inserir-se no mercado de forma competitiva. É imprescindível
disponibilizar uma assistência técnica permanente, seja ela
pública, em seus diferentes níveis de poder ou privada.
Também, investir fortemente na qualificação dos técnicos, manejadores,
magarefes etc. Ainda, entende-se como de suma importância, o
crédito constante, a médio e longo prazos, e com custos compatíveis
e diferenciados em função da exploração, isto é, leiteira ou
de corte e da região geográfica. Em adição, é de fundamental
importância buscar implementar ações que objetivem a modernização
da caprino-ovinocultura com ênfase na organização das cadeias
produtivas, priorizando-se o mercado e o marketing.
Ressalta-se que a caprino-ovinocultura oferece diversas alternativas
para a implementação de sistemas de produção.
Naturalmente, a definição dos objetivos e metas deve estar vinculada
diretamente às possibilidades de negócio acenadas pelo mercado.
De modo geral, no entanto, evidencia-se que a cabra quando explorada
para leite, afora produzir alimento de elevado valor biológico,
gera mais emprego. Ao mesmo tempo, registra-se que o capital
empregado gira mais rápido do que aquele investido na caprino-ovinocultura
de corte. No Nordeste já se verifica que o leite de cabra não
beneficiado é comercializado por, no mínimo, R$ 0,70 (setenta
centavos) o litro, o que representa um acréscimo em torno 50,0%
quando comparado ao preço médio praticado na bovinocultura leiteira
regional.
O
mercado de carne dos pequenos ruminantes domésticos está em
franca ascensão em todo o país. Os preços hoje praticados no
âmbito da unidade produtiva giram em volta de R$ 1,80 a 2,20
por kg de peso vivo, ao passo que os
preços pagos pela carne
bovina, nas mesmas condições, estão em torno de R$ 1,20 por
kg de peso vivo.
Ressalte-se que a demanda está amplamente reprimida.
No
momento, cerca de 50,0% da carne ovina comercializada nas regiões
Nordeste e Centro-Oeste provém do estado do Rio Grande do Sul
e, da Argentina, do Uruguai e da Nova Zelândia. Isto denota
uma possibilidade enorme de mercado a ser conquistado. Ressalte-se
que a carne ovina proveniente do RS e daqueles países pode ser
de qualidade inferior em virtude de, em grande parte, ser oriunda
de animais de raças produtoras de lã. A produção de carne proveniente
de animais deslanados e semi-lanados poderá atender à demanda
interna e, em um futuro próximo, adentrar aos mercados internacionais.
A pele por seu turno, é o produto que mais oferece possibilidade
de retorno econômico quando se agrega valor.
No
entanto, na atualidade as peles brasileiras estão chegando aos
curtumes com uma elevada porcentagem de defeitos que podem ser
minimizados ou mesmo evitados procedendo-se mudanças nos sistemas
de exploração, investindo-se na qualificação da mão-de-obra,
reduzindo-se a idade de abate dos animais, dentre outros aspectos.
Entende-se que as intempéries climáticas representam ameaças sérias
ao desenvolvimento racional da caprino-ovinocultura no Nordeste
brasileiro. No entanto, as tecnologias disponíveis e os acenos
dos mercados, interno e externo, já permitem e impõem a modernização
tecnológica e de gestão nos diversos elos das cadeias produtivas.
As
rápidas mudanças que estão ocorrendo no mundo levam as sociedades
e as instituições a refletirem sobre a importância de se adaptarem
a esta nova ordem, sob pena de sucumbirem diante das imposições
de um mercado cada vez mais voltado para a globalização e, consequentemente,
para a qualidade e a certificação de produtos. Os programas
sociais de cunho unicamente paternalistas devem ser repensados,
pois não basta produzir para competir ou mesmo sobreviver.
A
conquista e a manutenção de níveis dignos de bem-estar de uma
população passam pela produção racional e competitiva de produtos
de elevado valor biológico, representada pela qualidade desses
produtos, por escala de produção, pela constância na oferta
e pela segurança alimentar.