| Por
Fernando Rodrigues Affonso *
É uma realidade triste mas com boas
perspectivas de ser revertida. O Rio Grande
do Sul já teve um rebanho de 14 milhões
de cabeças de ovelhas, que geravam
uma renda anual de US$ 80 milhões.
Hoje estamos reduzidos a um rebanho de 4
milhões de ovinos e uma produção
de 12 milhões de quilos de lã
por ano.
Por volta de 1958, o Estado tinha um serviço
de ovinotecnia exemplar, filiado à
Secretaria da Agricultura. A Associação
Riograndense de Criadores de Ovinos (Arco)
era referência, seu quadro técnico
suscitava admiração e respeito.
Foi a época romântica da criação
de ovelha. A lã, então alcunhada
de “ouro branco”, contribuía
com quantias expressivas para os cofres
públicos e para o bolso do produtor.
Gastamos muito dinheiro em importação
de machos e fêmeas do Uruguai, Argentina,
Austrália e Nova Zelândia,
o que qualificou nosso rebanho admiravelmente.
Concorremos com sucesso em inúmeras
exposições internacionais.
A vida é dinâmica, a roda girou,
a lã entrou em declínio e
a ovelha desapareceu de nossos campos. Passou
a ser chamada de formiga branca, predadora
de pastagem e geradora de muito trabalho.
Nosso rebanho encolheu em 10 milhões
de cabeças. O Rio Grande do Sul precisa
repensar o assunto ovinocultura. Embora
insuficientemente explorada, a ovelha é
uma vocação gaúcha
e cada vez mais o negócio que melhor
remunera dentro da pecuária. Os governos
federal e estadual têm manifestado
preocupação e buscam formas
de estimular o setor. Temos linhas de crédito,
como o Prodecap, que atendem as necessidades
do ovelheiro, tanto no que diz respeito
à aquisição de ventres
e de carneiros como na construção
e melhoria de instalações.
Uma dezena de entidades estão envolvidas
com o setor mas, ainda assim, me parece
que falta um órgão que assuma
a liderança com verdadeiro poder
político.
Não obstante as vantagens do ovino
aqui enumeradas, a proliferação
do rebanho é duvidosa. Entre os obstáculos,
o mais temido é o abigeato, grande
responsável pelo abandono da atividade
e desestímulo para os mais moços.
Ocorre-me sugerir aos nossos legisladores
que a ovelha seja enquadrada como caça,
da mesma forma como ocorre com a mulita,
por exemplo. Qualquer pessoa flagrada com
uma mulita nos tentos ou na mala do carro,
sofrerá os rigores da lei, garantida
pelo Ibama. Já um abigeatário,
se é interceptado pela polícia
levando uma ovelha carneada, na moto ou
na bicicleta, é solto na hora ou,
no máximo, em 24 horas.É inacreditável
que em um país necessitado de progresso,
haja atividades que não possam se
expandir por força de uma legislação
totalmente favorável ao criminoso.
Por mais bem aparelhados que sejam os organismos
policiais, pouco poderão fazer frente
à essa legislação.
Cabe a nós reverter a situação,
nós que temos tão poucos representantes
do campo nos parlamentos estaduais e federais.
Enquanto a legislação for
totalmente favorável ao criminoso,
pouco ou nada podemos fazer. Tramita a passos
lerdos na Câmara Federal projeto do
deputado Luiz Carlos Heinze (PPB-RS), que
eleva a pena mínima do crime para
três anos de reclusão e o torna
inafiançável. Por que esse
projeto não avança? Porque
os nossos legisladores não ouvem
o nosso clamor? Mas nós estamos clamando?
É preciso uma grande mobilização,
uma grande pressão, capaz de mostrar
os prejuízos que o desestímulo
que uma lei complacente com os criminosos
aliada a uma força policial desaparelhada
e desestimulada podem causar em uma sociedade
que precisa de emprego e trabalho.
* Produtor rural, presidente da Cooperativa
de Lãs Mauá, de Jaguarão,
e do Pólo de Ovinocultura da Zona
Sul do Estado
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