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OVINOS
E O CAPIM ARUANA: A ASSOCIAÇÃO IDEAL
Luiz Eduardo dos Santos¹
Eduardo Antonio da Cunha²
Mauro Sartori Bueno¹
Domingos Sanchez Roda²
1 Pesquisadores do Centro de Nutrição e Alimentação
do Instituto de Zootecnia - IZ
2 Pesquisadores do Centro de Etologia, Ambiência e Manejo - IZ
A ovinocultura vem apresentando crescimento no
estado de São Paulo. Nos últimos anos tem se verificado
não só um aumento no efetivo dos rebanhos, mas também
no número de propriedades envolvidas nessa atividade. A principal
causa disso é o aumento na demanda de carne ovina, mais especificamente
da carne de cordeiro, verificada nos centros de maior consumo, como a
região da Grande São Paulo e ainda em cidades de maior porte
do interior, tais como Campinas, Ribeirão Preto, Sorocaba, Bauru
e São José do Rio Preto.
Esses mercados vêm sendo atendidos, na sua maior parte, por produto
proveniente do Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina, caracterizado na
sua maior parte por carcaças de cordeiros puros ou mestiços
de raças produtoras de lã, tais como Corriedale, Ideal e
Merino. Ou ainda produto proveniente dos estados nordestinos sendo, nesse
caso, de animais com predomínio de sangue de raças deslanadas
como a Santa Inês e Morada Nova.
Tanto num caso como no outro, a qualidade das carcaças comercializadas
nem sempre é a ideal, em termos de características desejadas
pelo mercado consumidor, que valoriza a carcaça de animais jovens,
abatidos com idade inferior a 150 dias e peso vivo entre 28 a 32 kg. Essas
carcaças têm que apresentar uma proporção significativamente
maior do corte traseiro em relação ao dianteiro e costilhar,
além de apresentar uma boa distribuição de gordura
de cobertura que, sem ser excessiva, deve envolver boa parte da carcaça,
protegendo-a contra a perda acentuada de umidade. A gordura entremeada
na carne, em níveis moderados, também é necessária
para garantir a maciez e o seu sabor característico.
Normalmente, a carne ofertada no mercado, tanto a originária do
sul como a do nordeste, pela própria característica genética
das matrizes utilizadas e ainda pelos sistemas de criação
adotados, normalmente não atendem a essas exigências. São
carcaças imaturas, sem adequada proporção de gordura,
provenientes de animais de baixo peso. Ou, então, quando em cortes
maiores, provenientes de animais mais velhos, resultando em carcaças
com excesso de gordura, tanto de cobertura, como entremeada nos tecidos
a carne com menor maciez.
Essa carne, apesar de não ter a qualidade desejável, encontra
boa demanda e, em função da limitação da oferta,
ainda alcança preços compensadores. Todavia, em função
da distância entre as regiões produtoras e o local de consumo
e por tratar-se de transporte em condições especiais (sob
refrigeração), o custo é relativamente alto.
Já a carne produzida em São Paulo ou em estados vizinhos,
como Paraná e Minas Gerais, seja em função da proximidade
do mercado consumidor, seja em função de fatores ambientais
bastante favoráveis à produção ovina, em especial
para as raças de corte, pode apresentar qualidade superior a um
custo bem menor. Para isso concorrem a maior precocidade e produtividade
obtidas com as raças específicas para corte, tais como Ile
de France e Suffolk, já bastante difundidas, bem como a Poli Dorset,
de introdução mais recente. E ainda as situações
de pastagens mais produtivas e com manejo mais intensivo, que possibilitam
a utilização de lotações sensivelmente mais
elevadas que aquelas observadas no sul ou no nordeste.
O sistema de produção que melhor resultado vem apresentando
em nosso meio, prevê a manutenção das matrizes a pasto
até o momento da parição, quando então mãe
e crias, são confinadas em instalações simples, com
piso em chão batido forrado com cama (bagaço de cana, serragem
ou maravalhas de madeira). A alimentação básica se
consiste em volumoso (silagem ou capim picado) de boa qualidade, fornecido
à vontade, e concentrado em qualidade e quantidade determinadas
pelo valor nutritivo do volumoso e da exigência nutricional dos
animais (dependente do peso vivo da matriz e do número de idade
das crias).
O período de aleitamento varia de 45 a 90 dias, dependendo da raça
nível alimentar, potencial genético das matrizes e situação
de mercado, sendo que após o desmame as matrizes voltam ao pasto
enquanto as crias, em esquema de acabamento, com alimentação
reforçada, para abate aos 100 a 120 dias de idade com peso vivo
médio de 28 a 32 kg. As crias retidas para reposição
no plantel permanecem em confinamento até os 5/6 meses, quando
então começam a ter acesso gradativo ao pasto.
O sucesso no empreendimento exige que se trabalhe com uma eficiência
reprodutiva alta em termos de fertilidade, prolificidade e pequeno intervalo
entre partos, garantindo um elevado número de crias para abate.
Depende também da utilização de matrizes e, principalmente,
reprodutores de elevado potencial zootécnico, de maneira a se ter
crias precoces e com altos níveis de ganho de peso. E ainda da
obtenção de altas taxas de lotação nas pastagens,
possibilitando o trabalho com o maior número possível de
matrizes.
Finalmente, depende da utilização de forrageiras de alto
valor nutritivo e que atendam adequadamente às exigências
nutricionais das matrizes, mesmo em gestação.
Normalmente as forrageiras mais indicadas para ovinos são aquelas
de hábito estolonífero (prostrado), tais como Coast Cross,
Tiftoris e Estrelas (gênero Cynodon), Pangola (gênero Digitaria),
Pensacola (gênero Paspalum). Essas gramíneas atendem relativamente
bem às exigências dos ovinos e seus hábitos de pastejo
peculiares, tais como: resistência à seleção
intensa e ao pastejo rente ao solo; porte médio a baixo, inferior
a 1,0 metro, enraizamento intenso e profundo, boa produtividade e valor
nutritivo, incluindo-se aí a boa concentração em
nutrientes, alta digestibilidade e, principalmente, alta aceitabilidade
pelos animais.
Essas forrageiras apresentam, no entanto, dois aspectos negativos: a maioria
apresenta propagação por mudas, o que dificulta e encarece
a formação de áreas maiores de pastagens. E, mais
importante, em função do hábito de crescimento estolonífero;
formam uma massa vegetal fechada que, mesmo quando rebaixada, impede a
penetração da radiação solar e mantém
um microclima favorável às larvas dos helmintos. Isso torna
extremamente difícil o controle da verminose, principal problema
sanitário para os ovinos, sendo essa dificuldade potencializada
quanto maior for a lotação das pastagens, podendo chegar
à inviabilização da atividade.
Outras forrageiras normalmente utilizadas em pastagens para bovinos têm
utilização dificultada para ovinos ou por apresentarem porte
excessivo, fazendo com que os animais pastem só nas beiradas, resultando
em super pastejo nessa área e sub pastejo nas áreas internas
do pasto ou por não tolerarem o pastejo baixo e pisoteio intensivo
promovido pelo ovino. Nesse grupo estão incluídas a maioria
das gramíneas dos gêneros Panicum (colonião), Chloris
(rhodes) e Setária, que ainda tem o agravante da baixa aceitabilidade.
As gramíneas do gênero Brachiaria, apesar da vantagem de
propagação por semente, apresentam problemas de baixo valor
nutritivo, hábito de crescimento prostrado, dificultando o controle
da verminose, sendo ainda esses aspectos agravados pela maior possibilidade
de ocorrência de foto-sensibilização.
Dentro desse quadro temos o capim Aruana (Panicum maximum cv.IZ-5) que
vem sendo utilizado na Unidade de Ovinos do Instituto de Zootecnia, em
Nova Odessa (SP), há mais de 5 anos, em pastejo rotacionado com
ovinos.
Cultivar aruana
O aruana é um cultivar do colonião introduzido no Instituto
de Zootecnia, em 1974, através de sementes provenientes da África,
sendo selecionado a partir daí pelos técnicos da então
Seção de Agronomia de Plantas Forrageiras, tendo sido lançado
comercialmente em 1995.
Dentre as características mais interessantes desse cultivar, pode-se
destacar:
a) Porte médio (adequado ao ovino), atingindo aproximadamente 80
cm de altura.
b) Grande capacidade e rapidez de perfilhamento, com um bom número
de gemas basais rebrotando após cada ciclo de pastejo.
c) Boa capacidade de ocupação da área de pasto, não
deixando áreas de solo descoberto, evitando o praguejamento e auxiliando
no controle da erosão.
d) Propagação por sementes (formação mais
fácil, rápida e de menor custo).
e) Boa produção de sementes, garantindo o restabelecimento
rápido da pastagem em caso de necessidade de recuperação
(após eventuais "acidentes" como queima, geadas, pragas
ou degradação por falha de manejo).
f) Boa tolerância ao pastejo baixo (rente ao solo) promovido pelo
ovino, o que possibilita a adoção dessa técnica de
manejo como parte da estratégia no controle de helmintos parasitas
(favorecendo a exposição de larvas às intempéries
climáticas (radiação solar e vento).
g) A arquitetura foliar ereta e aberta, típica das forragens cespitosas
(em touceiras), propicia uma maior incidência de radiação
solar e maior ventilação dentro do perfil da pastagem. Isso
força a migração das larvas para a base do capim
logo às primeiras horas da manhã, após a secagem
do orvalho, favorecendo o controle da verminose.
h) Alta produtividade de forragem, com 35 a 40% da produção
anual ocorrendo no "inverno" (período seco do ano).
i) Excelente aceitabilidade pelos animais.
Durante o período em que o Aruana está em uso na Unidade
de Ovinos, mostrou-se relativamente tolerante à geadas e aos ataques
de cigarrinha. Tendo sido feito nesse período o acompanhamento
da sua produtividade, com bons resultados, obtendo-se valores médios
da ordem de 18 a 21 ton de MS/ha/ano. A boa qualidade da forragem foi
atestada pelo excelente desempenho obtido com fêmeas ovinas das
raças Ile de France e Suffolk, em gestação ou em
crescimento.
A área de pastagem utilizada é subdividida em piquetes (5),
possibilitando um manejo rotacionado no qual cada pasto é utilizado
por um período de 9 a no máximo 15 dias, tendo um período
de repouso de 40 a 60 dias, dependendo da disponibilidade de forragem
e da situação do "stand" da forrageira no piquete
após cada ciclo de pastejo.
No "verão" (período das chuvas) cada piquete é
subdividido com auxílio de cerca eletrificada móvel, sendo
movimentada em faixas, liberando-se 1/3 da pastagem a cada período
de 3 a 5 dias.
A elevada produtividade e alto valor nutritivo do Aruana é dependente
de uma adequada reposição de nutrientes no solo, que é
feita anualmente, através da fertilização química
com N, P, K e Ca, com base em análise de solo e, eventualmente,
da forragem. A necessidade média de reposição tem
sido de 50 kg/ha de fósforo e 30 kg/ha de potássio. A correção
da acidez do solo foi feita uma única vez (3 anos após a
formação da pastagem) com a distribuição de
1000 kg/ha de calcário, em área onde foi introduzida leguminosa
(soja perene). A reposição de P, K e Ca foi feita a lanço,
normalmente no início do período das águas. A adubação
nitrogenada correspondeu a 150 kg/ha de N tendo sido utilizado o Nitrocálcio
como veículo. Dessa quantia, 100 kg/ha foram distribuídos
a lanço no final do período das águas e os restantes
50 kg/ha junto com o restante da adubação (início
do período das águas subsequente).
Em razão desses aspectos tem sido possível a utilização
de lotações altas na pastagem, da ordem de 35 cab/ha/ano,
contra uma média de 12 a 20 cabeças/ha/ano, obtida pelos
criadores, com outras forrageiras e, ainda assim, necessitar somente de
5 a 6 aplicações/ano de anti-helmínticos, contra
10 a 12 usualmente utilizadas pelos pecuaristas.
Dessa maneira o capim aruana mostra-se como uma excelente alternativa,
senão a ideal, para pastejo com ovinos, desde que em condições
adequadas de manejo, solo e clima, podendo a sua utilização,
contribuir significativamente para que a ovinocultura firme-se cada vez
mais como alternativa de viabilização sócio-econômica
para a pequena e média propriedade rural no estado de São
Paulo.
Programa de seleção de ovinos para torná-los
geneticamente superiores
O Instituto de Zootecnia, em Nova Odessa - SP, desenvolve um programa
de seleção de ovinos das raças Suffolk e Ile de France,
ambas para corte, dando ênfase à avaliação
direta do animal, que são: peso ao nascer, peso ao desmame que
ocorre por volta dos 50-60 dias, velocidade de ganho de peso, conformação
da carcaça e características raciais. Outro tipo de avaliação
é a indireta quando observa-se os filhos desse animal até
a segunda geração.
Através dela pode-se perceber a capacidade de transmissão
do potencial zootécnico.
As fêmeas passam pelo mesmo programa de seleção, onde
são observados os atributos direto e indireto e os de reprodução
que são fertilidade (capacidade da ovelha produzir crias) e prolificidade
(tamanho da prole - neste caso seleciona-se aquelas que tem maior possibilidade
de ter parto múltiplo). Essas características são
herdadas geneticamente.
Assim, através da seleção dos ovinos, tem-se um melhoramento
genético, que passa de geração a geração,
tornando esse animal mais produtivo, mais caracterizado na raça
e também mais precoce. Ou seja, ele se desenvolve e ganha peso
rapidamente a ponto de ser abatido em menor tempo. A seleção
de filhas de parto múltiplo é interessante para a produção
de cordeiros para abate na região sudeste. Além do fator
genético do animal, a existência da variável ambiente
(alimentação, manejo e sanidade) também deve ser
levada em consideração.
Sistema de manejo de ovelhas a pasto
O Instituto de Zootecnia possui um sistema de manejo de ovelhas em que
as matrizes ficam a pasto. Entretanto, esse pasto possui um capim de alto
valor nutritivo, o aruana. É um cultivar de Colonião desenvolvido
nas instalações do IZ especialmente para suprir as necessidades
do animal e também para facilitar o controle de verminoses, visto
que os ovinos são suscetíveis a vermes. Esse fato é
essencial para a saúde pública pois com esse capim a carne
que chega ao consumidor não possui tantos resíduos tóxicos
de produtos vermífugos. A necessidade de vermifugação
gira em torno de até 12 vezes/ano. Outra vantagem do sistema é
o crescimento acelerado. Por esse motivo pode-se colocar de 30 a 35 cabeças/hectares/ano,
fazendo dobrar o lucro de vendas. Outras vantagens são o valor
nutritivo; a elevada produtividade;o hábito entouceirado; propagado
em sementes (facilita o plantio e possui menor custo). O capim arana vem
sendo utilizado há anos no IZ em pastejo rotacionado com ovinos
e, nesse período, conseguiu-se bons resultados com fêmeas
em gestação ou em crescimento.
O IZ trabalha atualmente com um software denominado Sistema de Gerenciamento
de Rebanhos Ovinos (SIGRO) onde pode-se cadastrar o plantel com todos
os dados do animal, tais como: ficha de controle do plantel ativo e do
arquivo morto; ficha individual; desempenho ponderal (peso ao desmame)
e reprodutivo; datas para pesagem pós-desmame; coberturas sem prenhez;
datas prováveis de parição; estatísticas e
outras.
Os animais que são considerados fortes candidatos a ter uma descendência
de alto valor genético costumam participar de exposições
com julgamento. O IZ, com o intuito de agilizar a transferência
da tecnologia para o produtor e mesmo para estar em sintonia com as necessidades
do criador, sempre participa com seus animais.
Isso vem provar que selecionando-se direta e indiretamente e com o manejo
simples, mas correto, estaremos melhorando geneticamente a progênie
e esta estará cada vez mais perto de contar com grandes reprodutores
da raça.
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